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O Segredo do Oriente e René Guénon

Rev. Pe. Lucien Roure, S. J. (1932)



1. Introdução: as duas teses centrais de Guénon;

2. Sua ilustração em O Rei do Mundo;

3. Uma pausa para recuperar o fôlego;

4. Prosseguindo na análise da obra;

5. O Simbolismo da Cruz de Guénon;

6. O genuíno Simbolismo e Tradição cristã;

7. A Crise do Mundo Moderno e O Homem e seu Devir segundo o Vedanta;

8. Considerações finais.




[1. Introdução. As duas teses centrais de G.]


No estudo daquilo que se convencionou chamar de Ocultismo, ninguém, em nossos dias, traz maior ardor, perseverança e riqueza de documentação que monsieur René Guénon. Ninguém se destaca em dissecar como ele a origem e as ramificações de certos movimentos de ideias misteriosos. Seus livros O Erro Espírita e O Teosofismo abundam de detalhes inéditos e precisões reveladoras que nos fazem assistir ao nascimento e evolução dessas religiões novas, delas explicam a estranha fortuna e manifestam as taras.

Mas erudição é coisa com que às vezes a gente se inebria. Na procura do detalhe novo, curioso, pomo-nos a recolher de todas as mãos e descuramos do controle. E então, teses que foram montadas com grande riqueza de fatos são caducas, por falta de base sólida.

Quais são as teses que busca fixar o Sr. René Guénon? Duas são as principais.

Sob as formas religiosas atuais, de modo particular o judaísmo e o cristianismo, circula uma corrente oculta, proveniente de uma fonte primitiva. Dessa crença primeira, nossas religiões são expressões derivadas, diminuídas. As palavras e os ritos subsistem; o seu sentido profundo perdeu-se ou escapa aos fiéis. É esse sentido interno que se trata de reencontrar ou de revelar àqueles que se mantêm no aspecto exterior. Essa tese é comum a todos os ocultistas. Estudamos aqui mesmo [emÉtudes S. J.] algumas de suas formas.[1] A maneira do Sr. Guénon distingue-se por uma informação mais abundante, especialmente na interpretação do simbolismo.


[1. Pode-se consultar, a esse respeito: Au Pays de l’Occultisme [No País do Ocultismo]. Paris, Beauchesne.]


A segunda tese —a principal, aos olhos do autor— é que a corrente que transporta as crenças primitivas da humanidade tem origem no Oriente, mais especificamente nas Índias. Tese igualmente comum entre os ocultistas. Mas, também aqui, o Sr. René Guénon esforçou-se por renová-la com uma erudição mais estendida, nascida de um comércio direto com os livros sagrados do Oriente. Não quis ele até mesmo se fazer iniciar nos mistérios das religiões hindus?

Além disso, ao opor o Oriente ao Ocidente, ele não apenas enxerga no Oriente o reservatório secreto de todas as nossas crenças religiosas, como ele prega o retorno às doutrinas, às práticas, à civilização, ou melhor, à vida desse Oriente. Mundo envelhecido ou abortado, o Ocidente deve pedir ao Oriente o rejuvenescimento ao mesmo tempo que o verdadeiro sentido das coisas.

A essa tese dupla são consagradas uma série de obras: Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus, Oriente e Ocidente, O Homem e seu Devir segundo o Vedanta, A Crise do Mundo Moderno.

Dois volumes aplicam-se a ilustrar um caso particular: O Rei do Mundo, 1930; O Simbolismo da Cruz, 1931. Detenhamo-nos um instante primeiro nestes últimos.


[2. Sua ilustração em O Rei do Mundo.]


A ideia do livro O Rei do Mundo nasceu de uma obra póstuma de Saint-Yves d’Alveydre intitulada Missão da Índia, que foi publicada em 1910. Contém a descrição de um centro iniciático misterioso designado pelo nome deAgarttha. O Sr. René Guénon sentia-se bastante disposto, junto de muitos leitores desse livro, a não ver nisso nada além de um relato imaginário, quando foi publicado, em 1924, um volume Bestas, Homens e Deuses, no qual o Sr. Ferdinand Ossendowski narra as peripécias de uma viagem agitada que ele fez, em 1920 e 1921, pela Ásia central. Fala-se ali daAgarttha e também de um mundo subterrâneo que estenderia suas ramificações por toda a parte, debaixo dos continentes e mesmo dos oceanos, e pelo qual se estabelecem invisíveis comunicações entre todas as regiões da terra: no que ele se une a Saint-Yves d’Alveydre. O Sr. Ossendowski designa o cabeça da hierarquia iniciática sob o título de “rei do mundo”.

Nesse “rei do mundo”, o Sr. René Guénon reconhece Manu, o legislador primordial e universal, idêntico ao Menés dos egípcios e ao Minos dos gregos.


“O nome, aliás, —acrescenta ele,— não designa de maneira alguma um personagem histórico ou mais ou menos legendário. O que ele designa, na realidade, é um princípio, a Inteligência cósmica que reflete a Luz espiritual pura e formula a Lei (Dharma) própria às condições de nosso mundo ou de nosso ciclo de existência. E ele é, ao mesmo tempo, o arquétipo do homem considerado especialmente enquanto ser pensante.”


O que não impede esse princípio de se manifestar ou encarnar em um centro espiritual estabelecido em nosso mundo terrestre numa organização encarregada de conservar integralmente o depósito da tradição sagrada, de origem “não humana”. Seria o caso da Agarttha, que teria quem sabe recolhido o legado da antiga “dinastia solar”.

O “rei do mundo” encarnaria um duplo poder, a uma só vez sacerdotal e régio. Essa união dos dois poderes era representada entre os latinos pelo símbolo de Janus. Na Idade Média, os dois poderes permanecem distintos, o Papa e o Imperador. Mas faz-se menção frequente, nessa época, a uma região misteriosa que era chamada de “reino do prestes João”. E se poderia ver nos nestorianos e nos sabeanos como que a “capa exterior” desse centro iniciático. Recorde-se ainda dos discípulos do “velho da montanha” e dos drusos do Líbano que se intitulavam “guardiães da Terra Santa”: termo que indica não a terra onde viveu o Salvador, mas uma morada de iniciação.

No Ocidente, a ideia de um homem eminente que é sacerdote e rei ao mesmo tempo é representada pelos “Reis Magos” e, na tradição judaico-cristã, por Melquisedeque, rei de Salem e sacerdote do Altíssimo.

Finalmente, o centro onde reside o “rei do mundo”…


“…é o ponto fixo que todas as tradições concordam em designar simbolicamente como o ‘Pólo’, porque é ao redor dele que se efetua a rotação do mundo, representado geralmente pela roda entre os celtas assim como entre os caldeus e entre os hindus. Essa é a verdadeira significação da suástica 卐, esse sinal que se acha disseminado por toda parte, do Extremo-Oriente ao Extremo-Ocidente, e que é essencialmente o ‘sinal do Pólo’.”


E o Sr. René Guénon ajunta triunfalmente:

“É sem dúvida aqui a primeira vez, na Europa moderna, que se dá a conhecer o seu verdadeiro sentido.”

Os eruditos contemporâneos, segundo ele, quiseram explicar esse símbolo mediante “as teorias mais fantasiosas”. A maioria viu aí, como alhures, um sinal unicamente “solar”: coisa que ele só acidentalmente pôde tornar-se. Outros interpretaram-no como sinal do movimento. Interpretação muito insuficiente, pois não se trata de um movimento qualquer, mas de um movimento de rotação que se realiza em torno de um centro ou eixo imutável. “É o ponto fixo que, repetimos, —insiste o Sr. René Guénon,— é o elemento essencial” da suástica. E esse ponto fixo simboliza a residência do “rei do mundo”.


[3. Uma pausa para recuperar o fôlego.]


Respiremos um instante. De que se trata? Trata-se, recordemo-lo, de demonstrar que se pode acompanhar desde os tempos mais remotos uma tradição segundo a qual existiria, num lugar da Terra sem dúvida subterrâneo, um centro iniciático guardião de um ensinamento primitivo, que seria presidido por um personagem que pode ser designado pelo nome de “rei do mundo”.

Essa tradição chegou ao conhecimento do Sr. René Guénon por meio de dois escritores contestadíssimos do século vinte, um dos quais não dá referência alguma, e o outro, no dizer do próprio Sr. Guénon, “não se responsabiliza por essa afirmação, declara até que não sabe que pensar, mas a atribui a diversos personagens que ele encontrou ao longo da viagem dele” pela Ásia central.

Tentando, por sua parte, reconstituir o trajeto dessa tradição, o Sr. Guénon pretende encontrar alguns pontos de irrupção. É, primeiro, a existência dos três legisladores: Manu, Menés, Minos. Mas esses três são daqueles legisladores que se encontram tais e quais no berço de toda e qualquer civilização; o papel deles não tem nada de secreto: longe disso, é necessariamente público. É, a seguir, a ideia antiga de um poder ao mesmo tempo sacerdotal e régio. Mas por que o cabeça do centro iniciático primitivo e os seus sucessores exerceriam necessariamente esse duplo poder? Demais, como encarnações desse poder não são indicados com alguma probabilidade senão Melquisedeque e o “rei João”. É pouco, para criar uma tradição. E com que direito atribuir a eles uma doutrina secreta? Aí está um proceder familiar nos ocultistas: encontram na história uma personalidade sobre a qual só se possuem raros dados, e já vão fazendo dela a depositária de um ensinamento misterioso. Quanto ao simbolismo sacerdotal e régio de Janus, isso é fantasia pura. Nos Magos, outrora, alguns viram sacerdotes; outros, reis — mas isso é completamente diferente de uma tradição de sacerdotes-reis. Em nossos dias concorda-se em ver neles, mais simplesmente, sábios ou homens notáveis aplicados ao estudo das ciências.

Então, como falar de um chefe ou de um centro de iniciação primitiva? E como fica esse reino subterrâneo de ramificações inumeráveis?

E não se diga que aí talvez não haja, no pensamento no autor, mais do que um símbolo. Já ouvimos o Sr. René Guénon declarar, a propósito de Manu, Menés e Minos, que embora tais nomes designem um princípio diretor, isso não impede que esse princípio se encarne num centro ou organização existente. E escreve ele noutra parte, falando dessa “Terra Santa”: “Para nós, os fatos geográficos mesmos e também os fatos históricos têm, como todos os outros, valor simbólico, o qual aliás, evidentemente, não lhes subtrai nada da realidade própria deles enquanto fatos, mas a eles confere, junto com essa realidade imediata, uma significação superior.” [2. Le Roi du Monde, pág. 134.]


[4. Prosseguindo na análise da obra.]


O restante do volume se emprega principalmente a estudar o simbolismo do mundo subterrâneo. E nele o Sr. Guénon é fértil, como sempre. “O culto das cavernas, —diz ele,— está sempre mais ou menos ligado à ideia de lugar interior ou de lugar central, e, sob esse aspecto, o símbolo da caverna e o do coração são bastante próximos um do outro.” — Aproximação bem característica do jeito ocultista. E, se no passado optou-se por lugares subterrâneos para o culto, não foi antes de tudo, diremos nós, por motivo de prudência ou de recolhimento?

Além disso, diz o autor, com frequência é feita a aproximação de cœlumcom o grego koilon, oco, vazio, cavo: o que indica uma relação comcaverna. Mas também se escreve caelum, que lembra a palavra caelare,ocultar. — “Nos períodos de ocultação ou de obscurecimento, a tradição cessa de ser manifestada exteriormente e abertamente; o mundo celeste (torna-se) então mundo subterrâneo.”

Em suma, simbolicamente, caverna = coração = céu. — Temos o dissabor de dizê-lo ao Sr. René Guénon: Isso é prestidigitação verbal ruim, se não for pura salada.

Assinala-se ainda como mui digna de ser notada a relação que existe entre o simbolismo da Arca, no dilúvio, e o do arco-íris [“arc-en-ciel”; “vulgarmente,arco-celeste” (Dic. Aulete) – ndt]. A Arca, durante o cataclisma, flutua no oceano das águas inferiores; o arco-íris aparece na nuvem, ou seja, na região das águas superiores, no momento que marca o restabelecimento da ordem. A analogia manifesta-se aqui no sentido mais estrito da palavra. Estamos na presença de duas figuras “inversas e complementares uma da outra: a convexidade da Arca está virada para baixo, a do arco-íris para cima, e a sua reunião forma uma figura circular ou cíclica completa, da qual elas são frequentemente as duas metades”. Essas duas figuras, ao formarem uma esfera mediante a oposição delas, anunciam e manifestam o restabelecimento da ordem, o termo de um ciclo.

Essa figura estava completa no começo do ciclo. Era representada por uma esfera, que é idêntica ao “ovo do mundo”. “O Paraíso terrestre se encontra no plano que a divide [a esfera – ndt] em duas metades: superior e inferior, ou seja, no limite entre o Céu e a Terra.”

No fim dos tempos, a reconstituição operar-se-á. Mas, “na figura da Jerusalém celeste, o círculo é substituído por um quadrado”. Não está dito no Apocalipse que essa cidade é quadrangular? Obtém-se, assim, aquilo que os hermetistas chamam de “a quadratura do círculo”. “A esfera, que representa o desdobramento das possibilidades pela expansão do ponto primordial e central, transforma-se num cubo quando esse desdobramento chega a termo.”

Às vezes pedimos que nos apresentem algum fragmento dessa ciência primitiva e secreta à procura da qual se gasta o esforço ocultista. Aí estão espécimes dela. Então é esse o sentido escondido das coisas! Francamente, esperávamos coisa melhor. Admitimos estar decepcionados.


[5. O Simbolismo da Cruz de G.]


O estudo que é objeto do volume intitulado: O Simbolismo da Cruz deriva seu especial interesse, como se compreende, do gênero de suplício do qual morreu Cristo. O autor afirma desde o preâmbulo, como fato inconteste, que se trata de um “símbolo que é, precisamente, daqueles que são conhecidos por quase todas as tradições, o que é indicativo de que estão ligados diretamente à grande Tradição primordial”. Ora, não há nada de menos provado do que isso.

Antes do Cristianismo, à margem do Cristianismo, a cruz não aparece como sinal posto em destaque em nenhum monumento religioso ou profano. O Sr. René Guénon não é capaz de citar exemplo algum. Se encontramos a cruz na arte de diversos povos antigos, é a título de ornamento secundário, tal como o círculo; e trata-se da cruz grega, quadrata, cujo aspecto distintamente geométrico se presta à arte ornamental. É a esse título que ela figura em joias antigas, colares e brincos. A cruz “ansata” ou “ankh” dos egípcios (na qual a barra transversal é encimada por um anel) tem o seu valor hieroglífico, como os outros sinais, sem que a ela se possa atribuir um valor misterioso. E, quando o autor adiciona: “A cruz está longe de pertencer própria e exclusivamente ao cristianismo”, ele não nos ensina nada de novo, mas omite dizer que esse sinal ocupa no Cristianismo um lugar que é sem comparação nenhuma com aquele que ela pode ocupar fora do Cristianismo.

E, no entanto, esse lugar [que a cruz ocupa fora do Cristianismo – ndt] deveria ter sido de primeira ordem se fosse verdade, como se afirma, que “se Cristo morreu na cruz, foi em razão do valor simbólico que a cruz possui em si mesma e que sempre foi reconhecido a ela por todas as tradições”.

O símbolo, com efeito, corresponderia a um dogma capital.

O indivíduo, se nos garante, não constitui senão uma entidade relativa e fragmentária. Ele não é um todo fechado, que se baste a si mesmo. Ele não passa de uma manifestação do ser. O Ser verdadeiro, ou Si, tem uma realidade permanente e eterna que se manifesta em múltiplos estados, mais ainda, que encerra todas as possibilidades, quer sejam elas um dia ou jamais realizadas. “A Existência é única na sua natureza íntima, como o Ser é um em-si-mesmo.” O Ser total, incondicionado, transcendente, pode ser chamado de “o Homem Universal”. Esse Homem Universal se realiza nos homens particulares.

A realização do Homem Universal é simbolizada pelo sinal da Cruz. “Nessa representação crucial, a expansão horizontal corresponde à indefinidade das modalidades possíveis de um mesmo estado de ser considerado integralmente; e a sobreposição vertical, à série indefinida dos estados do ser total.” Noutros termos, a barra vertical representa os diversos estados do Ser, a barra horizontal corresponde aos diversos modos de um mesmo estado. A cruz simboliza assim a expansão do Ser em todas as suas modalidades.

O ponto central da cruz corresponde àquilo que o esoterismo muçulmano chama de “a Estação Divina”, aquela que reune os contrastes e antinomias; ela corresponde àquilo que a tradição extremo-oriental chama de o Invariável Meio, lugar do equilíbrio perfeito. O sábio perfeito, segundo a doutrina taoísta, é aquele que chegou ao ponto central e ali permanece em união indissolúvel com o Princípio, participando de sua imutabilidade.

O Sr. René Guénon desenvolve muitas outras considerações sobre a cruz, que o leitor curioso de sutilezas matemático-metafísicas poderá ir procurar no livro dele. Nós nos restringiremos a duas observações.

A primeira. — Nos diversos textos tirados das doutrinas esotéricas do Oriente citados pelo Sr. Guénon, a cruz não é nomeada. Permanece a ser provada, portanto, a coisa essencial: que a cruz fora do Cristianismo é empregada como símbolo e que esse simbolismo é um ensinamento tradicional.

A segunda. — Se a cruz simboliza e exprime a natureza do Ser transcendente ao mesmo tempo que as relações do homem particular e do sábio com esse Ser, como é que, perguntamos novamente, a cruz ocupa lugar tão pouco importante nas representações antigas?


[6. Sobre o genuíno Simbolismo e Tradição cristã.]


Quer isto dizer que se deva rejeitar todo simbolismo?

Nós não podemos nos esquecer de que toda a liturgia católica é simbólica. Os ritos, os gestos do nosso culto exprimem, recordam, evocam coisas de ordem superior. A água do batismo, o crisma da confirmação, o pão e o vinho eucarísticos não são só matéria do sacramento; significam também realidades eminentes, uma purificação ou um enriquecimento espiritual, um alimento divino. A Igreja, em suas orações, nos convida a nos elevarmos por meio das coisas visíveis às coisas invisíveis. Ela sabe que todo o material é à imagem do espiritual. Mais ainda, ela sabe que todo o criado é vestígio, reflexo de Deus. É Deus que nós devemos procurar, descobrir em todo o finito, no mundo dos corpos e no mundo das almas. Seus doutores, seus místicos indicaram Itinerários e Subidas para guiar a alma cristã, auxiliando-se das criaturas, na ascensão dos cimos divinos.

O que censuramos nos ocultistas é eles atribuírem às coisas significações forçadas, fantasiosas, gratuitas, tiradas de comparações aventurescas, deduzidas de similitudes longínquas, ínfimas, verbais, por exemplo de uma simples analogia de sons entre duas palavras. É erigir conjecturas temerárias, hipóteses que pedem ser controladas, em afirmações dogmáticas.

O que não podemos aceitar é a pretensão de descobrir em todo esse pseudo-simbolismo expressão de uma doutrina primitiva, perdida, ao menos para os povos do Ocidente.

Se há uma tradição que se conservou através das eras, e que aparece aqui ou ali mais manifesta, é a de uma falta primitiva, de uma queda, com a promessa de um reparador. Essa tradição está consignada em termos mais nítidos nos livros sagrados dos judeus. São Paulo diz desse povo que “tudo acontecia a eles em figura” (I Cor X, 11). Assim quanto ao cativeiro do Egito, o maná, a água que brota do rochedo, a serpente de bronze, a travessia do Mar Vermelho. O culto deles e os sacrifícios deles prefiguravam um culto mais perfeito, um sacrifício mais espiritual. Pode-se garantir sem temor de errar que nasceu daí a ideia ocultista. Os livros do Antigo Testamento forneceram a matéria-prima às investigações dos ocultistas. O que eles não enxergaram, ou o que não quiseram enxergar, é que aquela história inteira se apresentava, mesmo naquilo que ela referia do passado, como um anúncio e prefiguração do futuro. E que há de espantoso que assim seja, se considerarmos que a vinda a este mundo de um Redentor, de um Deus encarnado, é o grande acontecimento, o acontecimento central da história da humanidade? Com plena razão, São Paulo chama a época da vinda de Cristo “a plenitude dos tempos”. Cristo mesmo disse que a Sua missão é a de “cumprir e perfazer todas as coisas”. Ele se apresenta como a “Verdade”: “Eu sou a Verdade.” “Eu sou a luz do mundo.” “Quem me segue não caminha na escuridão.” “O que aprendi de meu Pai”, portanto o sentido da divindade, razão última das coisas e do homem, “eu vo-lo dei a conhecer”.

Por uma estranha inversão das coisas, os ocultistas procuram nas palavras, fatos e gestos de Cristo vestígios de uma doutrina, de uma revelação perdida. Ora, foi Ele quem formulou aquilo que, antes d’Ele, só tinha sido balbuciado. A Sua doutrina não é reflexo, um reflexo imperfeito, daquilo que precedeu. Tudo o que foi feito e dito antes d’Ele, O prepara. Ele é “a Verdade” plena, toda a Verdade.

Como é que o Sr. René Guénon, que leu o Evangelho e que às vezes é encontrado em nossas igrejas, não compreendeu isso?



[7. A Crise do Mundo Moderno e

O Homem e seu Devir segundo o Vedanta.]



Mas a ambição do Sr. René Guénon vai mais longe que nos impor esta ou aquela interpretação simbólica ou transmitir-nos alguns lampejos da doutrina primitiva. É uma renovação do Ocidente que ele tem em vista; e essa renovação não pode ser feita senão mediante um retorno ao espírito do Oriente. E o espírito do Oriente é um espírito essencialmente tradicional. O que o autor já tinha desenvolvido em Oriente e Ocidente, ele retoma na Crise do Mundo Moderno. Certamente, é fácil para ele denunciar as taras da nossa civilização material e agitada, a busca desenfreada por bem-estar, a nossa concepção materialista da ciência e da vida. Na perturbação que trabalha hoje a sociedade, ele vê a aproximação do fim de um mundo, o fim de um ciclo histórico. Ele sabe aliás, com ciência segura, que o período “histórico” em que vivemos “remonta exatamente ao século dezesseis antes da era cristã”.

Ele admite que, no Ocidente, é no Catolicismo que subsistem os restos do espírito tradicional. Houve um endireitamento notável no tempo do começo e primeira expansão do Cristianismo. Depois da verdadeira Idade Média, ou seja, depois do século XIV, começou a decadência: renascença, protestantismo, positivismo, laicismo, tais foram as suas etapas. E, em nossos dias, se o Catolicismo conservou talvez o depósito da tradição, o sentido profundo dela se perdeu. “Onde estão, —pergunta ele,— mesmo no catolicismo, os homens que conhecem o sentido profundo da doutrina que professam exteriormente?”

Acima deste ou daquele conhecimento simbólico, o espírito dessa doutrina é a superioridade da contemplação sobre a ação. Mas, novamente, como se deve entender esse exercício da inteligência? Aqui, nós tocamos no ponto vital do pensamento do Sr. René Guénon. O conhecimento propriamente dito, o verdadeiro conhecimento metafísico, só se obtém por “intuição intelectual”. A razão não alcança senão “teorias antimetafísicas”.


“Enquanto os ocidentais se obstinarem em desprezar ou negar a intuição intelectual, não poderão ter tradição alguma no verdadeiro sentido da palavra, nem poderão, tampouco, entender-se com os autênticos representantes das civilizações orientais, nas quais tudo está como que suspenso a esta intuição, imutável e infalível em si, e único ponto de partida de todo desenvolvimento conforme às normas tradicionais.” (A Crise do Mundo Moderno, p. 90.)


O inteiro volume O Homem e seu Devir segundo o Vedanta se aplica a mostrar essa intuição em obra, e os conhecimentos que ela pode prover. O Vedanta ou o Veda é a ciência suprema, tal como ela está contida nos Upanixades, onde se exprime a pura religião bramânica, a tradição primordial e fundamental. É “uma doutrina puramente metafísica, aberta para possibilidades de concepção verdadeiramente ilimitadas”. Enquanto tal, essa doutrina “não tem como se conciliar com as fronteiras mais ou menos estreitas de um sistema, seja qual for”, daquilo que os europeus chamam de filosofia.

O Vedanta é essencialmente a consideração de Brahma ou Princípio Supremo, princípio não qualificado, além de toda distinção, absolutamente incondicionado. Esse princípio se confunde com o Si transcendente e permanente de que o Eu humano não passa de modulação transitória e passageira.

Brahma ou o Princípio Supremo reside no centro vital do ser humano. A união íntima e essencial do nosso Eu com Brahma, —união que é propriamente o Yoga— constitui a Libertação. É obtida por meio da “atenção perpetuamente concentrada e fixa no Supremo Brahma”. Esta é “a única preparação realmente indispensável” para a Libertação. Os ocidentais apresentam a Salvação como fruto da ação, como se a ação pudesse libertar da ação. Além disso, diferentemente da Salvação, a Libertação pode operar-se já a partir desta vida.

O iogue, que realizou a Identidade Suprema, é um com Brahma, que é “eterno, puro, livre, solitário, incessantemente repleto de beatitude, Princípio de toda existência, cognoscente e sem fim”.

Com seu ardor, com sua embriaguez de crente, o Sr. René Guénon celebra em duzentas e cinquenta páginas essa metafísica.


[8. Considerações finais.]


Cumpre saber se desanuviar desse inebriamento.

É evidente que há um pensamento oriental e um pensamento ocidental, uma maneira de pensar própria ao Oriente e uma maneira de pensar própria ao Ocidente. Mas com que direito impor ao Ocidente as concepções e formas de pensar do Oriente? Coloquemos que os altos platôs da Índia sejam o berço da humanidade. No tempo dos primeiros arianos, uma mesma civilização estava submetida às mesmas crenças e às mesmas instituições. Quais fossem exatamente essas crenças e essas instituições, é impossível de precisar. Não se pode senão conjecturar, a partir daquilo que permanece comum às civilizações do Ocidente e do Oriente. Seja como for quanto a isso, essas duas civilizações tomaram rumo diferente. Essas diferenças, que são profundas, só podem dever-se a exigências, a necessidades diferentes, nascidas da atmosfera, do ambiente, das circunstâncias de vida. Elas marcaram o espírito de cada civilização ao ponto de que seria pueril sonhar com unificação. De resto, sem dúvida alguma elas correspondem a elementos que continuam a existir. Quem sonharia em reduzir a forma de pensamento, a lógica dos ingleses, à forma de pensamento, à lógica dos franceses? E, no entanto, as civilizações deles têm tantos pontos em comum!

Assim, querer converter o Ocidente ao Oriente é pura quimera.

Mas ao menos podemos encontrar o pensamento primitivo da Índia nas Escrituras védicas? Esses escritos formam uma coleção compilada tardiamente. Os fragmentos denotam uma indubitável evolução das crenças e das práticas. Embora não se tenha conseguido até aqui determinar a sua sequência e cronologia, os indianistas, como Barth e La Vallée Poussin, concordam em dizer que a metafísica bramânica não é primitiva. Os primeiros hinos apresentam noções bastante rudimentares e grosseiras sobre a alma, sobre o princípio que anima a natureza. Os sacrifícios, com ritos minuciosos e impostos sob pena de nulidade, ocupam um grande lugar na religião. Toda a metafísica monista que expõe o Sr. René Guénon é fruto posterior do trabalho da casta sacerdotal. E como crer que essa metafísica abstrusa forme a religião da massa do povo hindu? Será ela apanágio dos “videntes”, de certos monges, de iogues errantes ou solitários. O povo terá as suas práticas, os seus ritos, a sua teologia menos refinados.

Quiçá o Sr. René Guénon aceite essa hipótese. Os ocultistas, em geral, reservam a verdade a uma elite, na qual modestamente se incluem. Os ocidentais julgam que a verdade, a verdade essencial sobre a doutrina deve ser acessível a todos.

Puramente metafísica, a doutrina védica ou bramânica que se nos propõe reduz a religião a um exercício puramente intelectual. Foi-nos mostrado o Santo retendo a sua “atenção perpetuamente concentrada e fixa no Supremo Brahma”. Ele se aplica a desembaraçar de toda determinação o Ser Supremo. Ele esvazia-o de toda realidade, faz dele algo como um ponto matemático. Ao mesmo tempo, ele se esvazia a si próprio até ao ponto em que o vazio do eu seja absorvido no vazio do grande Si.

Nesse trabalho, toda noção de perfeição, de bondade, fica de fora. A contemplação do Santo será seca e estéril, aquela da qual foi dito por um ocidental: “Ai do conhecimento que não se volta para amar!” Contemplação que tem por fim não abismar a alma na adoração e no amor, mas que pretende dar consciência ao vidente de que ele e o Princípio Supremo são um só.

Cuida-se de no-lo dizer: o catolicismo distingue os homens em virtuosos e maldosos, o orientalismo à maneira dos seus novos profetas divide-os em sábios e ignorantes.

Conservemos nossa simplicidade. Nós aprendemos do nosso único mestre, Cristo, que as profundezas de Deus são descobertas não aos sábios todos cheios de sua ciência, mas aos simples e aos pequenos. Dentre esses simples e pequenos, há os místicos do Catolicismo reconhecidos como tais. Há todos os humildes pelos quais, na oração, Deus Se deixa tocar.

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Rev. Pe. Lucien ROURE, S.J., O Segredo do Oriente e René Guénon, jul. 1932; “Le Secret de l’Orient et René Guénon”, rev. Études, ano 69, tomo 212, jul. 1932, p. 184-196.


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