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A vida de Mons. Guérard des Lauriers

Retirado da edição n. 18 da “Revista Sodalitium”, por Rev. Abbé Giuseppe Murro Tradução por Abner Benedetto


Raymond Michel Charles Guérard des Lauriers nasceu em Suresnes, perto de Paris, em 25 de outubro de 1898 às 22h45 na rua des Barrières, 27, filho de Paul Louis Guérard des Lauriers e Lucie Madeleine Lefebvre, sua esposa. Posteriormente, foi batizado na paróquia do Imaculado Coração de Maria, em Suresnes, no dia 24 de dezembro de 1898; seu padrinho foi Charles Guérard des Lauriers e sua madrinha foi A. Lefebvre.

Apesar de seu primeiro nome ser Raymond, sua família sempre o chamou de Michel. Desde a infância, mostrou uma disposição particular para os estudos, revelando uma inteligência incomum: “um gênio”, podemos assim dizer. E graças a isso já tinha excelentes notas desde que ingressou na escola pública de Suresnes: em 1908 por “mapas”, e em 1909 por “seu trabalho, seu cuidado e sua conduta”.

Recebeu uma educação cristã em sua família: sua mãe tinha grande fé e grande piedade. Ele também disse que [ela] era uma santa. Michel deve ter feito uma Primeira Comunhão muito boa, pois foi a ela que sua mãe atribuiu a graça da vocação. Recebeu o Sacramento da Confirmação em 25 de abril de 1910, também na Paróquia do Imaculado Coração.

Após a dolorosa provação para toda a família da morte de seu pai em 1913, Michel foi matriculado no Lycée Chaptal. Em novembro de 1915, foi admitido como postulante na Ordem Terceira dos Maristas, que tinha a meditação como exercício diário de piedade; depois do noviciado, fez a profissão no dia 26 de março de 1917. Foi nesse momento que Michel começou a pensar na vocação. No entanto, foi também em março de 1917 que teve de interromper os estudos, devido ao recrutamento: foi incorporado ao 113º Regimento de Infantaria; depois, ele frequentou o Centre d’Instruction em St-Cyr, de 1º de setembro de 1918 a 1º de fevereiro de 1919, período em que chegou a participar de um curso de treinamento para o uso de metralhadora em Granville, no qual foi mencionado como “muito capaz”. Esta é a descrição de Michel dada pelo comandante da 7ª Companhia de St-Cyr, Capitão Regard:

“Espírito frio e metódico, dando-se pouco, mas refletindo muito, conhecendo bem o terreno; de educação superior, será um chefe de primeira linha e um oficial brilhante.” Mas os desígnios de Providência serão bem diferentes para Michel.

Pós-Guerra

Admitido na École Polytechnique em 1920, a qual abandonou em 1921 para ingressar na École Normale Supérieure. Em 1924, obteve a cátedra de Matemática, recebendo posteriormente bolsas de estudos em Paris e Roma, onde estudou com o professor Levi-Civita (1925–26), e ingressou na Accademia dei Lincei. Aqui devemos destacar particularmente a boa influência exercida sobre Michel pelo padre G. Massenet, vigário da paróquia do Imaculado Coração de Maria, sacerdote muito piedoso e zeloso, que todos consideravam um novo Cura d’Ars. Muito humilde, rejeitou categoricamente todas as promoções que lhe foram oferecidas e terminou sua vida piedosamente como sacerdote honorário de Suresnes. Pe. Massenet conheceu Michel a fundo e sempre manteve contato com ele durante o serviço militar, os estudos, a estada na Itália: poderia assim aconselhá-lo sabiamente sobre o seu futuro, quer para uma vocação, quer para a solução das dificuldades que lhe eram apresentadas. Ele não escondeu sua alegria quando Michel tomou sua decisão e, antes de partir, deu-lhe um conselho final:

“Temos que nos separar quase continuamente dos efeitos que as circunstâncias nos apresentam. Entendo, também, sua dor em abandonar os lugares que lhe são queridos pelas lembranças que eles lhe trazem. Talvez não possamos dizer a esse respeito as palavras de São Paulo: quotidie morior (morro todo dia)? Em uma das leituras do Breviário, um santo Padre nos diz que a vida nada mais é do que uma morte prolongada. É verdade para o coração… e o que é maravilhoso é isso que você me diz: além de todos os sacrifícios que você deve fazer, no fundo do seu coração você está feliz e não trocaria seu lugar por outro! Assim fez Jesus para aqueles que se entregam totalmente por Ele: com uma das mãos tira tudo o que mais lhes apega, e com a outra deixa mil vezes mais do que davam. Você sentirá isso cada vez mais durante o seu noviciado…” (Carta de 29 de julho de 1926)

Vocação

A mãe de Michel, Lucie-Madeleine Lefebvre, viveu pela fé. Ela foi duas vezes à Itália para encontrar seu filho. Ela visitou basílicas, igrejas, catedrais, participando de cerimônias religiosas. Durante a sua segunda estada em Roma, em abril de 1926, soube da vocação de Michel. Ela mesma relata em seu diário de viagem, no dia 1º de abril (Quinta-feira santa): “Michel me anuncia a grande decisão… diante da imagem de Santo Tomás de Aquino… ele entrará nos Dominicanos. Louvado seja Deus! Que a sua vontade seja completa e que Ele me envie calma e coragem.”

Dois dias depois, depois de assistir ao Ofício do Sábado Santo, ela escreveu: “Ofício de São Joaquim. Comunhão aos pés do Salvador ressuscitado, à parte as separações terríveis que me assustam a fraqueza, tudo dentro de mim se manifesta em ação de graças, coragem, paz, em louvor a um Deus tão bom e misericordioso que, num instante, pode mudar a face de todas as coisas. Ordenação em São João de Latrão. Oh, espetáculo maravilhoso e consolador!”


De volta a Suresnes no sábado, 17 de abril, no mesmo dia foi à igreja: “Vou sem demora aos pés da Virgem de Suresnes para agradecê-la por ter protegido seu amado filhinho de todas as patrulhas armadas, a criança que havia sido marcada no dia de sua Primeira Comunhão; Ela não podia abandoná-lo! Não, Ela sempre irá protegê-lo, como a melhor de todas as mães, não? Espero que ele faça a obra de Deus, e trabalhe para a Sua glória.”

Michel tinha sido até então um jovem exemplar, não só nos estudos, mas também na sua vida moral: sério, devoto, esforçava-se por praticar os conselhos evangélicos: “Nunca fui ao teatro, a espectáculos, parecia-me estranho”, contaria mais tarde. Ele ia todas as semanas ver o Pe. Garrigou-Lagrange, e sentiu-se atraído pelos dominicanos.

Mas o que levou Michel a seguir uma vocação e a ordem de São Domingos? Uma tarde, ele ficou no convento do Angelicum para o canto das Completas, e assim, ao ver a estrela na pintura de São Domingos e na imagem de São Pedro Mártir, ele teve: “‘uma espécie de visão. Uma alegria imensa ter descoberto… que o bom Deus me escolheu para pertencer à Ordem da verdade. Era o fim de toda a minha juventude, eu tinha 28 anos’. E voltou a explicar: ‘Foi uma espécie de intuição. As mesmas imagens habitualmente belas tornaram-se, para mim, uma espécie de poderosa proteção do Céu. Eu vi o esplendor da Verdade, o esplendor da Verdade Divina’.”

O Seminarista

Michel entrou no noviciado de Amiens em setembro de 1926, aos 28 anos. Tomou o hábito no dia 23 do mesmo mês, com o nome de Ir. Louis-Bertrand. Emitiu a profissão religiosa em 23 de setembro de 1927.

Devido às leis anticlericais do início do século XX, na França, as ordens religiosas foram forçadas ao exílio; por isso, os noviços tiveram que continuar seus estudos no exterior. Os dominicanos tinham seu Seminário de Saulchoir em Kain, Bélgica, perto da fronteira francesa. O reitor do seminário era o Pe. Héris, autor de um importante comentário à Suma Teológica de Santo Tomás. Os estudos não fizeram o Ir. Louis-Bertrand esquecer seu desejo de conversão das almas: em 15 de outubro de 1927, inscreveu-se na Arquiconfraria de oração pela conversão de Israel, e, em 3 de fevereiro de 1928, em outra, para a retorno à fé católica dos povos do norte da Europa.

No seminário, os colegas o estimavam muito, seja por ser o mais velho, seja pelos estudos que fizera, seja… pelo bom humor que o tornava tão amigável. E assim, ele já era conhecido por seu interesse em assuntos especulativos, enquanto as coisas materiais o deixavam em grande parte indiferente.

Nos dias 6 e 7 de outubro, recebeu a tonsura e as ordens menores do Bispo de Tournai, Monsenhor Rasneur. Em 24 de setembro de 1930, monsenhor Drapiez o ordenou ao subdiaconato; Mons. Rasneur ordenou-o ao diaconato em 21 de dezembro e ao sacerdócio em 29 de julho de 1932, na Igreja do Convento de Saulchoir. Ele celebrou sua primeira missa em sua cidade natal, Suresnes.

O Professor

Após a ordenação, seus superiores decidiram que ele continuaria seus estudos para que pudesse lecionar. Durante o verão de 1932, a Faculdade de Lille solicitou à Ordem de São Domingos um professor de cálculo diferencial e integral, pois a cátedra havia ficado vaga devido a uma enfermidade do titular. O Provincial, Pe. Padé, propôs o Ir. Louis-Bertrand, que ainda não havia concluído seus estudos. Este último, prevendo a dificuldade objetiva em seguir os cursos de teologia em Saulchoir e ministrar os cursos em Lille, escreveu ao padre provincial, de quem dependia, que respondeu: “Foi o Pe. Héris que lhe mandou, não eu”.


Quando o irmão Louis-Bertrand falou sobre isso ao Pe. Héris, ele respondeu: “Foi o Padre Provincial, não eu”. Então, o Ir. Louis-Bertrand pouco pôde fazer além de aceitar, sem saber quem havia enviado a ordem.

Em 23 de março de 1933, obteve o título de Leitor, que na Ordem Dominicana equivale a um mestrado. A partir de 1933, ele foi professor de filosofia na Saulchoir, ensinando epistemologia e filosofia da ciência. Nesses anos, ele contribuiu para a Revue des Sciences Philosophiques et Theologiques, bem como para o Bulletin Thomiste.

Em 26 de novembro de 1934, recebeu o título de membro sênior da Faculdade de Lille. E quem viu isso não podia esquecer que ele era o único professor da Faculdade que se ajoelhava no início de uma aula para recitar a oração Veni Sancte Spiritus. Em 1939, graças a um grave estado de cansaço, apresentou a sua demissão em Lille, para grande desilusão do reitor que gostaria de o ter mantido.

As leis anticlericais na França haviam caído em desuso, e as ordens religiosas puderam retornar: os dominicanos de Kain conseguiram em Etoilles, perto de Paris, uma casa que também recebeu o nome de “Saulchoir”. A “mudança” ocorreu em duas etapas: primeiro os filósofos em 1938, depois os teólogos em 1939. Parece que o Ir. Louis-Bertrand veio com os primeiros. Seja como for, a designação final data de 1939.

Na Segunda Guerra Mundial, após o recrutamento geral, o Padre foi convocado para o serviço a 9 de setembro de 1939, com o posto de tenente da reserva; foi designado para o ramo técnico da artilharia, onde seus conhecimentos foram aplicados na fabricação de mesas de tiro. Depois de uma estadia em Tarbes, foi desmobilizado em 10 de setembro de 1940.

Foi nessa época que teve a ideia de uma vocação cartuxa. Ele escreveu para vários conventos, incluindo o Grande Chartreuse, e só alguns anos depois ele foi autorizado a ter uma experiência, o que, no entanto, não teve prosseguimento. Mons. Guérard viveu sempre com um grande silêncio interior; talvez por isso tenha pensado em seguir a vocação cartuxa, mas também nesta não deixou de querer seguir a Vontade de Cristo e de a encontrar nas vicissitudes da vida quotidiana. Apesar das atividades da vida religiosa, ele ainda conseguiu prosseguir seus estudos em matemática. Em 1930 foi recebido como membro da Société Mathématique de France. Em 3 de abril de 1941, defendeu uma tese na Sorbonne intitulada “Sur les systèmes différentiels du second ordre qui admettent un groupe continu fini de transformations”, tese defendida sob o patrocínio do professor Elie Cartan, que lhe concedeu o título de doutor em ciências matemáticas.

Depois da guerra, Mons. Guérard escreveu vários livros: “Le Mystère du Nombre de Dieu” (1940), “Le statut inductif de la théologie” (1942), “La Théologie historique et le développement de la théologie” (1946); sua obra-prima nestes anos foi “Dimensions de la Foi” (1950), uma extensão da análise epistemológica na área do conhecimento de Deus, realizada com total rigor e clareza teológica, “La théologie de S. Thomas et la grâce actuelle” (1945), “L’Immaculé Conception, clef des privilèges de Marie” (1955), “Le Phénomène humain du P. Teilhard de Chardin” (1954).

Daqui em diante, todos sabiam que suas palestras eram excelentes, mas também difíceis, e por isso poucos conseguiam acompanhá-las. Isso lhe rendeu algumas provocações simpáticas de seus colegas. Por exemplo, eles parafrasearam o “Penso, logo existo” de Descartes para atribuir a ele um “Penso, logo tu existes”.

O Religioso

Ele era cheio de caridade para com todos, tanto nas relações pessoais como nas circunstâncias particulares; então, ao saber que uma pobre freira se levantava às 5h15 para fazer sua meditação no frio congelante, ele quis dar a ela seu manto de presente: era tudo o que ele tinha na época.

Embora fosse um grande “intelectual”, não lhe faltava senso prático; pelo contrário, muitas vezes gostava de consertar objetos quebrados e fazia um pouco de jardinagem todos os dias; não hesitou em pôr as mãos nos trabalhos mais humildes. Seus estudos, seus cargos, até o episcopado nunca o fizeram esquecer que ele era, antes de tudo, um religioso dominicano.

Gostava de viajar de trem, levando seu altar portátil, seus livros para estudar durante a viagem e alguns objetos pessoais, e se a pessoa que viesse buscá-lo tivesse algum problema, ele, sem se preocupar, partia carregando sua bagagem. Como não recordar a sua capacidade de permanecer por muito tempo de joelhos no chão, imóvel, absorto na oração, e a pobreza em que vivia, contentando-se com tão pouco?

Ele foi obrigado a manter uma dieta rigorosa, devido aos problemas estomacais que apresentava desde a juventude; Pe. Massenet já havia recomendado que ele cuidasse de sua saúde. Quando voltou para Saulchoir, pediu que os que lá viviam não demorassem mais do que uma hora para cada refeição, incluindo a sua preparação, pois esta ocupação, dizia ele, não merece mais do que isso! Mais tarde, aliviou esta regra, tão rigorosa, que os cozinheiros “se viravam” com panelas de pressão para não perderem o tempo! Quem o abordava não deixava de notar um certo humor que nunca o abandonava, com o qual coloria até as coisas mais sérias; eles riam de seus comentários, especialmente por sua verdade.

Não podemos esquecer a sua atividade na vida espiritual: os numerosos retiros que pregou, quer a comunidades religiosas, quer a grupos da Ordem Terceira Dominicana, quer a paróquias. Numerosos [escritos] foram publicados. De seus escritos espirituais, citamos, “Virgo fidelis” (1950), “Magnificat” (1950), “La Charité de la Vérité” (1951), “La Voie Royale”, “Ma Maison sera appelée une maison de prière” , “Marie Reine”, “Le Silence”.

Foi nomeado, em 7 de abril de 1950, confessor adjunto das Irmãs Dominicanas do Mosteiro da Cruz, em Etiolles, enquanto continuou lecionando em Saulchoir e participando de diversas conferências, especialmente a Conferência Tomista em Roma, em 1955, onde falou sobre metafísica e metaciência, e na conferência de Gallarate, em 1959.

Trabalhos e Controvérsias

Durante a década de 1950, Mons. Guérard participou das polêmicas contra o neomodernismo sem limites que acabaria por dominar o Concílio Vaticano II. Em diversos dos seus escritos sobre a teologia da graça, ele distinguiu claramente a ordem natural da ordem sobrenatural contra as tendências da “Nouvelle Théologie” e do Pe. de Lubac. No que diz respeito à cosmologia evolutiva, ele foi um dos principais oponentes do Pe. Teilhard de Chardin (cf. Sommavilla: La Compagnia di Gesù, Rizzoli, 1985). Essas controvérsias levaram à condenação do neomodernismo por parte de Pio XII, com a encíclica Humani Generis (1950).

Mons. Guérard denunciou o Pe. Congar ao Santo Ofício, e avisou que o prefeito, Cardeal Ottaviani, estava ignorando as ideias de Congar; isso desencadeou contra ele o mau humor de muitos de seus colegas, mesmo em Saulchoir. Pe. Guérard des Lauriers foi um eminente mariólogo. Sob este título, participou dos trabalhos preparatórios para a definição do Dogma da Assunção (1950). Nesta ocasião, desenvolveu a doutrina do Magistério Ordinário Universal (sobre a Assunção) que provou a infalibilidade do futuro dogma.

Além disso, ele foi um dos principais teólogos que apoiaram a intenção do Papa Pio XII de completar os Dogmas Marianos com a definição de Maria, Co-Mediadora e Co-Redentora. Mas os progressistas, que não souberam fugir da proclamação da Assunção da Santíssima Virgem, souberam pôr de lado essas duas definições. A proclamação da Realeza de Maria (1954), que nos projetos de Pio XII serviria de prelúdio para as duas seguintes, foi então o sinal para uma pausa da qual o Padre Guérard logo teve plena consciência.

O papel assumido pelo Padre na década de 1950 nos faz entender por que Pio XII iria lhe oferecer a púrpura cardinalícia, mas fontes bem informadas nos dizem que De Gaulle vetou. Em 1961, o bispo Piolanti convidou o padre Louis-Bertrand a vir a Roma para lecionar na Universidade Lateranense. Assim, por cerca de dez anos, ele teve que se ausentar de Étiolles por vários meses devido a seu trabalho em Roma, permanecendo no Angelicum, onde se reunia com seu estimado Padre Garrigou-Lagrange, até que este adoeceu.


O Breve Exame Crítico

Enquanto isso, os eventos estão se desenvolvendo rapidamente: a reforma litúrgica está em pleno andamento até que a Santa Missa seja lançada em tumulto. Mons. Guérard relata:

“Roma, Quinta-feira Santa, 3 de abril de 1969. Surgiu o chamado ‘Novus Ordo Missae’. Havia dois coros, o de Satanás e o de Jesus: alegria, consternação. Eu pertencia, pela graça de Deus, ao segundo. Mas eu tinha que agir. Uma dama romana da alta burguesia, Vittoria Cristina Guerrini, e sua amiga Emilia Pediconi (ambas falecidas posteriormente), conheciam muito bem o funcionamento do Vaticano, em particular o Cardeal Ottaviani. Este se deixou convencer. E assim foi decidida a abordagem dos Cardeais, uma abordagem cuja honra deveria ser dada a quem concebeu o projeto, suportou o fardo e morreu daquela agonia. Era preciso preparar o documento, cuja revisão havia sido reservada ao cardeal Ottaviani, e prometido ser enviado ao ‘papa’. As duas romanas, especialmente V. C. Guerrini, estiveram em contato com muitos clérigos. Alguns, talvez cinco ou seis, responderam ao chamado, mas não contribuíram muito mais do que uma cooperação passiva em algumas reuniões semanais. No entanto, o grupo muito deveu a um liturgista extremamente distinto, autor corajoso e crítico dos artigos que publicou na época em periódicos romanos; Lamento ter esquecido o nome dele. Mons. Marcel Lefebvre nos encorajou, à distância, e até nos encheu de esperança: ‘Vamos conseguir a assinatura de 600 bispos!’ Infelizmente, ele não colocou nem a sua.”

Pe. Guérard escreveu, assim, o Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missæ durante os meses de abril e maio de 1969, especialmente à noite, pois esta tarefa imprevista foi adicionada a dias já bastante atarefados.

Por ocasião da preparação do Breve Exame Crítico, houve uma Missa no túmulo de São Pio V em Roma, no dia da sua festa, 5 de maio, celebrada por Mons. Lefebvre, que — para espanto dos presentes — adotou as mutilações de Paulo VI (mutilações bastante graves, embora ainda não fosse a Missa Nova). Quando, na saída, lhe perguntaram, ao mesmo tempo com respeito e tristeza, o motivo de suas ações, ele respondeu: “Se eles vissem Mons. Lefebvre celebrando a missa tradicional, isso poderia causar escândalo”.

Pe. Guérard comentou mais tarde: “Se Mons. Lefebvre não celebrou a dita Missa Nova, no entanto cumpriu ou omitiu exteriormente os gestos que o deixaram pensar, algo que não fui o único a observar… Mons. Lefebvre tinha duas personalidades em 5 de maio de 1969. Enquanto ele era considerado a alma de um pequeno grupo de ‘amigos’ que trabalhava dia e noite para salvar a Missa da ‘missa’, e enquanto mostrava encorajamento e simpatia a esse grupo, Mons. Lefebvre atingiu este grupo com a desaprovação pública da lealdade incondicional à ‘autoridade’ que tinha de ser enfrentada”.

A redação do Breve Exame custou ao Padre Guérard a cátedra da Lateranense, da qual foi demitido em junho de 1970, “juntamente ao reitor, Mons. Piolanti, e cerca de quinze professores, todos considerados indesejáveis”.

Enquanto isso, no convento de Etiolles, onde o padre ainda tinha sua casa, as coisas não iam melhor: alguns alunos do seminário participaram dos protestos de 1968 em Paris, e a bandeira dos anarquistas foi hasteada no telhado do convento. Os superiores, embora tenham tomado medidas, não controlavam mais a situação.

Extra Conventum

A decisão dos dominicanos de vender Saulchoir foi, para o Pe. Guérard, motivo de tristeza. Em Saulchoir, ele levava uma vida bastante tranquila em seu quartinho na parte superior da casa, o “celeiro”, como diziam seus colegas, em tom de brincadeira, e ali havia escrito na parede de sua cela: “O Beata Trinitas stat Veritas dum volvitur orbis” (Ó Santíssima Trindade, a Verdade permanece enquanto o mundo passa). É um pequeno resumo de toda a sua vida interior, na qual procurou penetrar no mistério da Santíssima Trindade.

Os dominicanos nem se preocuparam em transportar todos os móveis sagrados, e foi graças à intervenção do Pe. Louis-Bertrand que muitos objetos de culto foram salvos da destruição ou do uso profano. Após este último episódio, Mons. Guérard pediu (e conseguiu de seus superiores) viver “extra conventum”: a partir daí, a Fé o obrigou a separar-se fisicamente daquelas pessoas que — ao aceitar as novas reformas — iam perder a Fé. Neste momento, pensou em retirar-se para um local praticamente isolado, consagrar-se à oração e à conclusão dos estudos. Mas o homem propõe e Deus dita.

O Padre dedicou-se à pregação de retiros, a dar conferências, sobretudo sobre a situação atual, e a cuidar dos centros de Missa Tradicional.

Mons. Lefebvre abriu o seminário em Écône e precisava de professores para ensinar. Ele pediu ao Pe. Guérard para ministrar aulas. Assim começou a cooperação do Padre com Mons. Lefebvre, que tentou fazer o bem, esclarecer princípios que a verdade e a coerência exigem na ação “tradicionalista”.

Durante este tempo, o Pe. Guérard buscou a explicação teológica que tornasse justa e legítima a rejeição das novas reformas: ele elaborou uma tese segundo a qual o “papa”, desde pelo menos 7 de dezembro de 1965, aberta e objetivamente não professava mais exteriormente a Fé, e por isso perdeu ipso facto a Autoridade sobre a Igreja Militante, porque já não dirigia a sua ação tendo em vista o bem da Igreja e a salvação das almas. Visto que, até que se prove o contrário, a sua eleição parece válida, e visto que nenhum bispo ainda o advertiu publicamente para se retratar da sua heresia, conclui-se que ele é “papa” apenas “materialmente” e não “formalmente” (cf. Sodalitium nº 13, pp. 18-24), motivo pelo qual não deve ser mencionado no Cânon da Santa Missa, na oferenda da Vítima a Deus.

Havendo divisões em Écône sobre este assunto, tanto entre professores quanto entre alunos, Mons. Lefebvre tomou a decisão de “expurgar” o corpo docente. E Pe. Guérard foi demitido no outono de 1977, depois de ter pregado ao retiro de abertura aos seminaristas no início do ano letivo, durante o qual havia dito, entre outras coisas, que era preciso obedecer ao “papa” como a um cadáver (não “perinde ac cadaver”, mas sim “sicut cadaveri”).

As relações com Mons. Lefebvre, entretanto, permaneceram boas. Pe. Guérard deu o hábito da Ordem Terceira dos Dominicanos a algumas pessoas; tinha capacidade para isso, mas não tinha o poder de dar “a misericórdia da Ordem”, e por isso não recebia ninguém na Ordem, propriamente falando: “Sei que não tenho esse direito, e eu afirmei isso explicitamente”, escreveu mais tarde. É por isso que, quando um dos terciários deu o hábito aos postulantes, Mons. escreveu-lhe para dizer que não tinha o direito, e que ele próprio não reconhecia estes postulantes como irmãos da Ordem Terceira.

Pe. Guérard e Mons. Lefebvre

Em gratidão pelo bem que havia feito aos outros, foi abandonado por todos. Citamos, como exemplo, a carta de Mons. Lefebvre, no qual explicava por que não queria que o Padre voltasse a Écône, nem mesmo para visitar um grupo de jovens a quem havia dado o hábito e os havia encaminhado para o seminário de Écône para seus estudos (Ó feliz confiança e simplicidade!), sem imaginar que seria feito de tudo para separá-los dele:

“Estimado Reverendo Padre… a única razão que me dá uma certa apreensão é o caráter absoluto de vossas afirmações sobre o Papa e, eventualmente, sobre o N.O.M. Meu pensamento é menos afirmativo. Expressei, e ainda tenho, dúvidas sobre o Papa Paulo VI. Eu me pergunto, de fato, como um Papa pode contribuir tanto para a autodestruição da Igreja, mas me é permitido dizer que ele não é o Papa? Não me atrevo a dizê-lo de forma tão absoluta e definitiva.

… Se vós tendes evidências da perda legal [do papado] do Papa Paulo VI, entendo vossa lógica subsequente, mas, pessoalmente, tenho uma séria dúvida e não tenho provas absolutas…

… No que diz respeito à atitude prática, não é na falta de um Papa que se baseia a minha conduta, mas sim na defesa da minha Fé Católica… Mas vós acreditais em consciência que é preciso romper com este princípio, que infelizmente cria confusão e provoca divisões violentas, que eu quero evitar… Este é, em poucas palavras, o meu pensamento, que não está muito longe do vosso, mas que, em matéria de comportamento, tem mais em conta as realidades tradicionalistas do que as progressistas…”

A resposta do Pe. Guérard foi claro e coerente (7 de fevereiro de 1979):

“Com respeito ao Papa Paulo VI, não tenho provas da perda legal [do Papado], mas tenho, e há, provas metafísicas e teológicas de que, se a mais alta Autoridade da Igreja ensina uma doutrina tradicional já definida, a dita Autoridade goza ipso facto da assistência imediata do Espírito Santo. E se a referida Autoridade baseia uma Declaração expressamente na autoridade da Escritura, deve, portanto, ipso facto declarar, infalivelmente, a verdade. Se isso não for evidente, mostrar-me onde está o defeito.

E se isso é evidente, a ‘Autoridade’ que afirmou um erro, portanto, não era, de fato, ontologicamente capaz de exercer a Autoridade. Também nunca disse que houve uma cessação jurídica da ‘Autoridade’. Paulo VI permaneceu Papa materialiter, mas não o foi (pelo menos a partir de 7 de dezembro de 1965) formaliter

É impossível que uma profanação sacrílega da verdade seja introduzida na Igreja, que é santa. Declarar explicitamente que o Vaticano II, como Concílio, não é ‘da Igreja’, que ele não existe como Concílio, é condição sine qua non para restaurar a ordem na Igreja. Alguém poderia ter uma interpretação tradicional das verdades contidas no Vaticano II, mas não há interpretação tradicional possível do Vaticano II como Concílio. Visto que, precisamente deste ponto de vista, o Vaticano II opera uma ruptura com a Tradição. Vós especificais que ‘sua conduta é fundada, não na falta de um Papa, mas sim na fé católica’. Mas não vejo, na Igreja Católica Romana, que alguém possa testemunhar em favor da Fé, sem se situar exatamente onde está (ou parece estar) o Magistério hoje.

A existência de um Magistério infalível, que afirma por si mesmo que é infalível, esta existência é uma condição sine qua non para o exercício da Fé, tanto do ponto de vista teórico como prático.

Vós acrescentais, Monsenhor, que ‘leva em conta, mais do que eu, tanto as realidades tradicionalistas como as progressistas’. Mas, finalmente, é aconselhável levar em conta o progressismo, ainda que seja uma realidade? E para quais testemunhas vamos, senão para para aqueles que não respeitam as pessoas e que “ensinam o caminho de Deus segundo a verdade” (Marcos 12, 14).

É ‘a verdade que nos libertará’ (João 8:32) e ela somente. Uma questão que diz respeito à verdade não pode ser resolvida pela “convivência pacífica” na ‘pseudocaridade’, nem pelo silêncio imposto pela autoridade. Esse é o processo da igreja em debandada, um processo que o ‘pai da mentira’ incita.

Bem-aventurado aquele que vem em nome do Senhor… se estes se calarem, as pedras clamarão’ (Lucas 19, 40). Bendita seja a verdade. Não se deve ficar calado; deve-se gritar. Não creio que a (relativa) falta de um Papa (‘formaliter’) seja, como você escreve, um ‘princípio’. É a consequência inevitável dos fatos observados; e é, tanto para dar testemunho da Fé como para administrar os Sacramentos da Fé na Igreja, um pressuposto indispensável.

Na caridade da verdade, eu rezo para que vós aceiteis isso…”

Essa carta permaneceu sem resposta.

Esta procura da verdade, que repudia toda a falsa caridade, sentimental ou oportunista, esta adesão ao que é verdadeiro e racional, seria motivo de rejeição de muitos, seja da Tese do Padre, seja da sua pessoa. Opadre Coache teve a… decência de fazer um convite para uma reunião, marcada para o dia 22 de janeiro de 1979, que chegou para o Pe. Guérard no dia 29, ou seja, sete dias após o evento! Criticado por todos por sua postura, nunca recebeu, de quem quer que fosse, uma resposta lógica e precisa à Tese que havia exposto. Quem recusa a graça afunda-se cada vez mais no pecado: assim, quem recusa a luz da verdade afunda-se cada vez mais nas trevas do erro. E, de fato, foi nessa época que Mons. Lefebvre assinou o “Communiqué aux Associations saint Pie V”, escrito em Flavigny juntamente com outros “líderes” do tradicionalismo; afirmaram a sua união com o “Sucessor de Pedro”, para além das graves censuras que temos o direito de fazer (sic!), e pediram aos católicos que se reunissem em torno de “fiéis sacerdotes unidos a Roma e ao Sucessor de Pedro”.

É herético, contra o instinto da Fé”, comentou Pe. Guérard, “alheio em relação a toda a Tradição, pretender que se pode, e a fortiori deve, ‘permanecer unido ao chamado Sucessor de Pedro’, que habitualmente profere heresias, favorece em ato tudo o que destruiria a Igreja, recusa-se, de fato, a exercer como deve o carisma da infalibilidade… em vista de condenar e retirar as gravíssimas alterações da Missa e do Magistério”.

As reações a esta carta aberta foram numerosas: a distância entre Pe. Guérard e o “mundo tradicionalista” aumentou; quanto às respostas doutrinárias, quase por costume, não houve; não mais do que ataques insultuosos.

Nesse mesmo ano, o Padre iniciou, pela primeira vez, a publicação de sua tese sobre a Sé formalmente vacante nos Cahiers de Cassiciacum, a qual ainda não recebeu resposta séria, nem mais pessoas com coragem de abraçar a Verdade quando ela veio acompanhada de sacrifício e humilhação.

A Sagração

Após convites urgentes, no dia 7 de maio de 1981, Pe. Guérard aceitou a consagração episcopal de Mons. Ngo Dinh Thuc, Arcebispo de Hué (Vietnã), “uma consagração válida, lícita e legal”, da qual demos todas as nossas explicações na nossa revista, Sodalitium nº 13, pp. 25-28, e nº 16, pp. 33 e 34.

Por qual motivo Mons. Guérard foi levado a aceitar (a sagração) depois de aproximadamente um ano de reflexão? Ele mesmo nos responde: foi a mesma “voz” que o trouxe à vocação:

“A percepção que tive ao entrar na Ordem da Verdade foi para mim uma ressonância da mesma vida, do mesmo tom da intuição que tive de ter que aceitar uma espécie de voz interior, um impulso interior. Somos movidos para além de nós mesmos quando necessário. Vemos, sentimos uma certeza absoluta, uma espécie de impressão do fundo da alma. Então a primeira intuição foi: Veritas. E para o episcopado: HOC EST ENIM CORPUS MEUM. E compreendi: ‘tudo deve ser feito para salvar Oblatio Munda’.”

A consagração ocorreu sem que ninguém fosse informado, e isso permaneceu por um tempo. Isso foi um erro? Um ato de imprudência? Obediência a conselhos excessivamente cautelosos? Em todo caso, Monsenhor teve a coragem e a humildade de admitir que poderia estar errado (e quem não errou nos círculos tradicionalistas?). Mas muitos, se não todos, aproveitam esta circunstância secundária para condenar o próprio ato da consagração (são as mesmas pessoas, em grande parte, que hoje aplaudem as consagrações de Mons. Lefebvre); isso é honesto? Parece bastante liberal! Deus julgará, mas os atos que aconteceram já foram postos na balança, e o Senhor já os julgou.

Pouquíssimos foram os amigos que permaneceram próximos de Monsenhor: com o episcopado, ele realmente abraçou toda a cruz. Abandonado por aqueles com quem contava, ferido pela incompreensão e distorção da Tese de Cassiciacum e pela obstinação das almas perante a Verdade, Mons. Guérard experimentou uma tristeza semelhante à de Jesus no Horto das Oliveiras. Pode-se verdadeiramente aplicar a ele as palavras de Isaías (63, 3): “Eu pisei sozinho no lagar, e nenhum homem dentre os povos estava comigo”.

Calúnias

Quando alguém é deixado sozinho, é fácil caluniá-lo para direcionar o desprezo dos outros sobre ele. Um exemplo entre todos, [foi] mais uma vez Mons. Lefebvre, durante o Colóquio de Montreux de 16 de março de 1983, publicado por Marchons droit em junho-setembro de 1983:

O padre Guérard des Lauriers e o padre Barbara escreveram-me disparates e insultos. Eu nunca os respondi. Nunca insultei nenhum dos meus colegas que se separaram de mim.

Duas considerações: são os argumentos de Mons. Guérard “disparates”? É um insulto chamar de “traição” os pedidos de compromisso com os modernistas e de “traidor” o seu autor? Quanto à resposta, foi imposta a Mons. Lefebvre, dada sua atitude equívoca em relação à Fé: se ele não a tivesse dado, a suspeita em torno da Fé permaneceria. Ao “nunca insultei” Mons. Guérard responde: “Mas Mons. Lefebvre calunia, coisa que é muito pior”. E aqui está a calúnia:

“Pe. Guérard des Lauriers foi a Palmar de Troya para ver se este Papa poderia considerar-se autêntico. Isso é cisma. Não cabe a cada um de nós escolher um Papa. Isso é afastar-se da pedra angular, afastar-se da Igreja.”

Isso é falso: Mons. Guérard não só não foi, como nunca considerou a questão do Palmar. Ele desaprovava que Mons. Thuc se permitisse ser enganado por eles. Além disso, ele sempre recusou a tendência de certos bispos da “linha Thuc” de se arrogar um poder de jurisdição e chegar a eleger um papa. Ele definia tal posição como “secessionista criativa (…) que beira o espírito de aventura” (Sodalitium n°16 p. 22 e 24).

Mons. Lefebvre, embora informado sobre a falsidade de sua declaração, nunca retratou sua calúnia, nunca admitiu que havia cometido um erro. Então, quem usa “disparates e insultos”, bem como mentiras e falsos testemunhos? Aqui novamente: Deus julga e os atos que já aconteceram já foram julgados.

O apostolado de Mons. Guérard

A partir de 1983, Mons. Guérard se dedicou a aprofundar a tese de Cassiciacum, especificando o que deveria ser feito. Destaca a necessidade de ter bispos que professem plenamente a fé católica e que sejam validamente consagrados para poder continuar a Missio confiada por Nosso Senhor Jesus Cristo à sua Igreja. Também especifica quais são os poderes reais e os limites deste episcopado da Igreja em estado de privação do Papa. Mons. Guérard nunca evitou a discussão: nunca se recusou a revisar inteiramente sua tese de acordo com as objeções que lhe eram feitas, e isso por simples honestidade e lealdade intelectual, sem se sujeitar a preconceitos, nem mesmo com a “sua” tese, mas sim com o único desejo de buscar a Verdade, querendo ser seu humilde instrumento.

Eu me coloco do ponto de vista do ser”, costumava dizer quando explicava seu pensamento: esse realismo nas mais altas especulações evidenciava a verdade que ele afirmava. E quando “descobria” uma verdade, amava-a e abraçava-a totalmente: tal adesão era tanta que não admitia que persistia em contradizer o que era verdadeiro, e era acompanhado pela faculdade de discernir quem cometia um erro devido à ignorância invencível daqueles que o faziam culposamente.

Disposto a falar com todos, sustentava com toda a sua simplicidade e firmeza: “A fé não deve faltar”, costumava dizer, e manteve-se fiel a este princípio, acabando por pagar o preço ao dar a sua confiança a alguns que não mereceram, ou que não retribuíram o bem que receberam. Esta abertura “confiante” e quase inocente para com o próximo deu-lhe a possibilidade de aproximar-se de muitas almas, de reconhecer as animadas pela mesma Fé e de trazer de volta aos sacramentos pessoas que se afastaram dela há muito tempo. A caridade que vem de Deus não faz acepção de pessoas”, escreveu ele. Sem ostentação, sem “edificação”, sem conjecturas. “Se uma vida é verdadeira, não pode deixar de irradiar”, “se fizermos da Verdade a regra das nossas palavras e dos nossos pensamentos, conduzimos os outros à sinceridade, sem a qual não há vida possível com Deus”.

Estas suas afirmações nos provam a clareza de sua alma e a retidão de suas intenções. Aliás, a confiança nas pessoas nunca o impediu de saber reconhecer nos modernistas a impossibilidade prática (embora não teórica) de poderem se converter à Fé.

O amor à Verdade e o apego à Santa Igreja, o desejo de fazer o bem a Nosso Senhor Jesus Cristo, levaram Mons. Guérard nunca descansar sobre os louros, mas sim continuar a luta “usque ad mortem”, até o fim de sua vida. A Tese de Cassiciacum é o ponto de partida de sua ação; ele escreveu:

“O que alguém realmente pensa sobre a Tese, ele manifesta em ato, pois o que a Tese realmente afirma, implica inevitavelmente nas seguintes alternativas:

A) continuar a Missio, e portanto reconhecer a necessidade por este motivo (e somente por este motivo) de bispos, que, na situação atual, devem ser consagrados sem que seja possível remetê-los à Autoridade;

B) admitir que a Missio possa cessar, pelo menos temporariamente, porque é impossível que ela seja [perfeitamente] o que deveria ser. Segue-se que se, ao mesmo tempo, se rejeita a consagração dos bispos e se continua a Missio, diga-se ou queira-se o que se diga, não se sustenta realmente a Tese, ou seja, na realidade, nega-se a Tese.”

Aos que negavam tal alternativa, ele respondeu: “Ou há Missio ou não há Missio, segundo o princípio da não contradição. O componente essencial da Missio é a Missa, a Oblação pura. Quais são os componentes da Missio que podem sobreviver sem Bispos? A Missio, sem autoridade suprema, requer Bispos.” Assim, para continuar a Missio, Mons. Guérard desejava ordenar sacerdotes e consagrar bispos; de fato, em 17 de março de 1984, ele ordenou o Pe. Hubert Petit, e no dia 30 de abril, ele sagrou Mons. Storck, bem como Mons. McKenna em 22 de agosto de 1986, e Mons. Munari, em 25 de novembro de 1987.

Antes de cada consagração, especificava sempre a necessidade de a fazer sem o Mandato Romano e o desejo de se submeter a um verdadeiro Papa quando Deus o desse à Igreja, pondo fim ao estado de vacância formal (Sodalitium nº 16, págs. 3-4).

O amor à Igreja e à Oblação pura o deteve ante nenhum sacrifício: apesar da sua avançada idade, não hesitou em percorrer milhares de quilômetros para pregar, celebrar a Santa Missa, administrar os sacramentos, visitar os necessitados, aceitando até vocações com a responsabilidade de preparar e dar aulas sem nunca pensar em si mesmo, nem em seu cansaço, nem em seus ataques hepáticos que muitas vezes o obrigavam a ficar na cama sofrendo.

Clarividência

Nos últimos tempos, pode-se ver suas “previsões” sobre os acontecimentos em que vivemos hoje se tornando realidade. E, sobretudo, o “colapso” do Pe. de Blignières, cujas qualidades conhecia, mas das quais tinha visto o que os outros não tinham discernido: “Ele será um homem para o bem ou para o mal”, previra há muito tempo. Em 1982, ele escreveu: “Não posso mais ter certeza dele. Ele parece excessivamente preocupado em manter contato (útil?) com todos. Isso não é reconfortante.

No entanto, já depois da consagração de Mons. Guérard, Pe. de Blignières demonstrou tal veemência contra este ato, que sua adesão à Tese de Cassiciacum não parecia segura. Só Deus perscruta os corações e conhece as intenções mais secretas; mas Mons. Guérard tentou e esperou até o fim trazer Pe. Blignières novamente para o bom caminho, apesar do mal ter voltado para o bem por parte do padre.

Com respeito a Mons. Lefebvre, também podemos dizer hoje que Mons. Guérard havia previsto a maneira pela qual as consagrações ocorreriam:

“Será necessário, portanto, se ocorrerem as ditas consagrações, que não se regozije prematuramente. Será necessário examinar se a questão do ‘mandato romano’, normalmente exigido para toda consagração episcopal, é claramente colocada e resolvida… As consagrações episcopais que ocorrem segundo o rito tradicional, mas… ‘una cum W’ [Wojtyla] podem ser válidas, mas estranhas à sã doutrina, maculadas com sacrilégio, sendo prejudiciais ao Testemunho da Santa Fé; não se explicariam por outra coisa senão pela astúcia de Satanás” (Sodalitium nº 16, pp. 16-17).

A Tese de Cassiciacum e as Sagrações

“A Tese e a inferência que ela estabelece (a vacância formal da Sé Apostólica por causa do cisma capital de Wojtyla, incapaz de estabelecer disposições com aplicabilidade na Igreja) deve ser certa; deve não só ser justificada, mas antes regular o comportamento prático dos fiéis que, claros em sua adesão à Tradição, se recusam a reconhecer Wojtyla como, formalmente e de fato, o chefe visível da Igreja Militante.

Além disso, essa inferência deve ser independente. Ou seja, a certeza exigida para esta inferência não pode proceder, nem mesmo implicitamente, de um juízo cuja pseudocerteza se apóia na pseudoautoridade que atualmente assola a Igreja MIlitante, a de W. Portanto, seria contraditório ( e por isso vaidoso) recorrer à autoridade da ‘autoridade’, a fim de provar que é necessário… não reconhecer esta ‘autoridade’. Seria contraditório presumir, afim de produzir provas, a infalibilidade daquilo que se pretendia, ao final da prova, de modo a afirmar que negligenciou a infalibilidade. Tal é o vício radical do lefebvrismo.

Concretamente, na realidade, sejam quais forem as declarações platônicas ou inclinações extraordinárias, quem cumpre a Missio inevitavelmente e objetivamente tem o mesmo comportamento com relação à Tese e com relação à consagração, porque essas duas coisas são ontologicamente indissociáveis, como o são, em qualquer existência concreta, o ato de ser e a natureza que é sua medida. Isso também é o que a observação confirma. Por um lado, com efeito, rejeitar a Tese e aceitar a consagração seria evidentemente cismático. Por outro lado, rejeitar a consagração, e (aparentemente) aceitar a Tese, é degradar esta última a uma abstração eidética (puramente lógica e separada da realidade) que não é mais o que é Verdade adequadamente conversível com a realidade. A consagração prova que quem, mesmo que seja apenas um ponto, não é a favor da Tese, é, na realidade, contra a Tese (‘Quem não é comigo, é contra mim’; Lucas 11, 23) (…)

Se se escolhe continuar a Missio sem remetê-la à ‘autoridade’, é porque esse comportamento aparentemente anormal se justifica ao afirmar que a ‘autoridade’ não é a Autoridade, isto é, afirmar a Tese como um ‘princípio’ e colocar ’em ato’ que este ‘princípio’ exige que se continue a Missio. Portanto, o que se opõe ex se à continuação da Missio, se opõe ex se e ipso facto à Tese, que tem direito ao princípio da necessidade. E dado que, sem consagração, a Missio não pode perdurar, a situação, isto é, o fato da continuação da Missio sem referência à ‘autoridade’ implica que, objetiva e concretamente, rejeitar a consagração é negar a Tese. Em outras palavras, sendo a consagração condição necessária para uma consequência fática necessária da Tese, impedir esta consequência (rejeitando a consagração) é, na realidade, rejeitar a Tese, que é o princípio necessário para esta consequência.”

Estes princípios de ação, estudados e vividos por Mons. Guérard, foram um modo coerente e regra da sua vida durante os seus últimos anos, até à sua morte: criticado, ridicularizado e, sobretudo, vendo-se abandonado, nunca deixou de seguir a verdade. Até hoje, ninguém soube analisar melhor a situação atual do que ele, ninguém soube responder às objeções que ele fez a outras teses que pretendem resolver de outra forma a situação atual. Defunctus adhuc loquitur”: os mortos ainda falam, como é o caso de Mons. Guérard, pois encontramos em seus escritos e em suas palavras uma compreensão dos fatos de hoje e de amanhã: a solução para a crise na Igreja aparecerá quando eles aplicarem honestamente todos os princípios que ele expôs. Tirar, como muitos, apenas parte do que ensinou “para não sujar as mãos” não é honesto e nada resolve. Mas, evidentemente, para aderir à Tese de Mons. Guérard hoje custa várias humilhações e incompreensões.

Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor

Agora, Mons. Guérard nos olha do alto. O que dizer dele agora? É ele mesmo que nos sugere:

“Beati mortui qui in Domino moriuntur.“ A Fé estremece e a natureza permanece proibida. Mistério e mistério. É a palavra solene que irradia a luz própria no Reino. Beati mortui qui in Domino moriuntur. É como uma nona bem-aventurança, é o alvorecer da Felicidade eterna, a única coisa que passa de um ‘porquê’. Assim podemos terminar a última felicidade da Terra, que deve ser semelhante às outras oito: ‘Beati mortui qui in Domino moriuntur’ quia ‘Pretiosa est in conspectu Domini mors sanctorum ejus’ (‘Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor’, porque ‘preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos’: Apoc. 14, 13; Salmo 115,15). Testemunhando a morte de outros, não podemos reconstruir o papel dos moribundos. Desejando ver Deus, nossa natureza se recusa a entender por que a unidade de nosso ser deve ser destruída para compreender aquele que é a causa. Mas há, neste caso, apenas uma coisa a entender: a morte entrou no mundo somente pelo pecado… Ninguém na terra vê a Deus. Quem quer ver quer sair da terra. Quem quer ficar na terra, talvez gostaria de ver, mas na verdade não quer. Beati mortui qui in Domino moriuntur. Bem-aventurados os que morrem em virtude do desejo de seu Senhor. O desejo de Deus é assim realizado na bem-aventurança da morte; embora não aponte para a própria morte, este é o fato: morrer é ganhar (Filipenses 1, 21).

Como isso é possível? Bem, há uma oposição radical entre o mirabilius reformasti e a deformação: um era uma ruptura violenta imposta pelo homem de fora, colocando-se voluntariamente fora da ordem de Deus; o outro vem sempre de dentro, segundo a suavidade e a força de Deus. A morte, em que se enfrenta um desejo cego e que priva a vida, torna-se aqui, na Ressurreição e pela Ressurreição, condição intrínseca da vida; e eis como um desejo santo assume a morte a ponto de produzi-la, longe de querer fugir dela. Ó Senhor, como é bom morrer de desejo, e peço-Vos ardentemente que me torneis inteiramente humilde, se Vos dignais fazer ressoar no meu coração o Vosso Mistério: ‘Se queres…’ (S. Mateus 19, 21).

Para ver como é simples morrer em Ti, não devo considerar em mim a criatura, a criatura humana, a criatura humana e pecadora confrontada com o seu Criador, com o Espírito subsistente, com o Amor subsistente. O que eternamente me torna e me tornará simples, isto é, semelhante a Ti, é ser teu filho. O ato de morrer em Ti é por excelência: um ato que vem do filho, que vem do desejo, mas sob o impulso da misteriosa Graça. O desejo inspirador de uma morte abençoada vem da criatura; é um desejo incondicionado que tende ao seu objeto, que também tende a ser infinito. Mas o desejo, como ato da criatura, é finito; só pode ser infinito se, unido a Deus, se torna imanente a Ele.

É Deus quem desperta o desejo, na medida em que atrai. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou, o não atrair” (João 6, 44). “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (João 12, 32). O desejo é infinito na atração onde repousa. Preciosa para Ti, ó Senhor, é a morte de cada um de Teus filhos: Abba, Pater. Preciosa para vós é a partida daqueles que, em virtude de vosso amor, se instruem sobre a mais secreta das bem-aventuranças: a de morrer e descobrir, no próprio ato da morte, o sinal supremo de vossa sabedoria: eles manifestam, sob as lágrimas e a glória que eles compartilham, a transcendência íntima de Tua atração imutável. Preciosa para Ti, ó Senhor, é a morte de cada um de Teus Santos em Teu amor; preciosa é a morte de todos os Teus Santos juntos neste mesmo Amor.”



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