top of page

O PRIMADO POTESTATIVO DO TOMISMO

Introdução


Para nós, neotomistas, toda a filosofia moderna a partir de Descartes, coisa tal que não foi inventada ex nihilo, senão que é uma síntese de todos aqueles princípios filosóficos errôneos apresentados por outras escolas que não a tomista; princípios estes que mais tarde resultariam na modernidade antifilosófica, a qual constitui parte substancial da crise do mundo hodierno. "Um pequeno erro no princípio acaba por tornar-se grande no fim"; com esta referência a Aristóteles, Santo Tomás abre seu famoso opúsculo “De ente et essentia”. Abalada a pedra angular do edíficio metafísico tomista, isto é, a distinção real entre essência e ato de ser (esse), a atividade especulativa não sairia sem enormes danos, como já avisara o Papa São Pio X: "... todos aqueles que ensinam fiquem cientes de que não será sem graves prejuízos que especialmente em matérias metafísicas, se afastarão de Santo Tomás" (Carta encíclica Pascendi Dominici Gregis). Desse modo, entendida como um desvio metafísico e espiritual, tanto pela Igreja quanto pelos neotomistas, essa crise só pode ser superada com um retorno ao tomismo vital e real.


O que disseram alguns Papas sobre Santo Tomás de sua doutrina:


Urbano V, na definição do Dogma da Transubstanciação diz que Santo Tomás é o “Doutor egrégio que, com seus ensinamentos saudáveis e transparentes, iluminou a Igreja universal, pondo de manifesto os enigmas da Escritura, desatando os nós de suas dificuldades, elucidando suas obscuridades e aclarando as dúvidas que surgem em seu estudo”.


O Papa João XXII numa Alocução no Consistório, em 1318, disse que “Santo Tomás deu mais luz à Igreja que todos os demais Doutores: com seus livros um homem aproveita mais em um ano, que com a doutrina dos outros em toda a sua vida”.


O Papa Clemente VI, fazendo o panegírico do santo na primeira vez que se celebrava sua festa na Universidade de Paris (7 de março de 1324), compara sua sabedoria à de Salomão "porque, assim como o Rei sábio superou nela todos os hebreus, egípcios e orientais, assim Santo Tomás excedeu em saber a todos os filósofos e teólogos, havidos e por haver".


Segundo  São Pio V, a doutrina tomista é “a mais certa regra da doutrina cristã” (Mirabilis Deus, 1567, in: Berthier, Doctor Communis ecclesiae. I, LVI-LVII, Roma, 1914, p. 98) e que “sua doutrina teológica, aceita pela Igreja Católica, ofusca toda outra como sendo a mais segura”.


 “Por isso quisemos advertir aos que se dedicam a ensinar a Filosofia e a Sagrada Teologia que, se se afastam do caminho de Santo Tomás, principalmente em questões de Metafísica, não o fará sem graves danos [...] Os princípios básicos da Filosofia de Santo Tomás não devem ser considerados como meramente opináveis ou discutíveis; Mas como fundamentos em que se apoiam todos os nossos conhecimentos do humano e do divino(São Pio X, Carta encíclica Doctoris Angelici – Sobre o estudo da doutrina tomista).


“Ite ad Thomam”, na encíclica Studiorum Ducem. Este documento de Pio XI recomenda, além do título Doutor Angélico, os títulos de Doutor Comum e Doutor Universal.


“Exigimos que nossos estudos filosóficos se façam em completo acordo com o método e os princípios da filosofia de Santo Tomás, porque nenhuma outra serve para expor e defender vitoriosamente a verdade revelada” (Bento XV, Discurso na Academia Romana de Santo Tomás).


Se tudo quanto expusemos for bem considerado, facilmente se compreenderá porque a Igreja exige que os futuros sacerdotes sejam instruídos nas disciplinas filosóficas, segundo o método, a doutrina e os princípios do Doutor Angélico, visto que, através da experiência de muitos séculos, conhece perfeitamente que o método e o sistema do Aquinate se distinguem por seu valor singular, tanto para a educação dos jovens quanto para a investigação das mais recônditas verdades, e que sua doutrina está afinada como que em uníssono com a divina revelação e é eficacíssima para assegurar os fundamentos da fé e para recolher de modo útil e seguro os frutos do são progresso” (Papa Pio XII, Carta encíclica Humani Generis).


Ainda Santo Alberto Magno, que não papa mas foi seu mestre e o conhecia muito bem, dizia que seu discípulo "era a flor e a honra do mundo, o homem mais sábio do seu tempo até o fim do mundo, sem temor de ser superado por ninguém, cujos escritos brilham sobre todos os demais por sua pureza e sua veracidade”.


Neotomismo é uma corrente filosófica surgida no século XIX com o objetivo de reviver a filosofia e a teologia de Santo Tomás de Aquino - o tomismo - a fim de atender aos problemas contemporâneos. Baseia-se, como o tomismo, na filosofia aristotélica para esclarecer e justificar racionalmente a revelação divina do cristianismo.


As primeiras idéias neotomistas surgiram no Collegio Alberoni, de Piacenza, Itália, na segunda metade do século XVIII. O movimento, no entanto, afirmou-se com o grupo fundador da revista Civilitá Cattolica, publicada em Nápoles a partir de 1850 e posteriormente também em Roma. Destacaram-se nesse grupo Matteo Liberatore e Gaetano Sanseverino.


A revitalização do tomismo veio com a Encíclica Aeterni Patris (1879), do Papa Leão XIII, que, ao lembrar os ensinamentos dos Doutores da Igreja, afirma que a filosofia é a fiel serva da fé cristã. A partir dessa encíclica, multiplicaram-se os centros de estudo e difusão do tomismo, como o Instituto Superior de Filosofia, na Universidade de Louvain, os institutos católicos de Paris, Lyon, Madrid e Washington, a Universidade de Friburgo, na Suíça, e outros.


No Motu Proprio Doctoris Angelici (1914), sobre a escolástica, São Pio X declarou a inviolabilidade da doutrina de Santo Tomás de Aquino, fundamento de toda ciência das coisas naturais e divinas. Em outra encíclica, Studiorum ducem (1925), o Papa Pio XI afirma que Santo Tomás de Aquino é o guia a ser seguido pela juventude clerical e que esse gênio divino não é só o Doutor Angélico, mas o Doutor Comum ou Universal da Igreja.


Entre os numerosos órgãos de divulgação do neotomismo incluem-se a Rivista di Filosofia Neo-Scolastica, de Milão, e a parisiense La Revue Thomiste. Como expoentes do movimento destacam-se Victor Cathrein, Désiré Mercier, os dominicanos Henri-Dominique Gardeil e Réginald Garrigou-Lagrange, o franciscano Agostini Gemelli e o filósofo francês Jacques Maritain, cuja obra, quase toda traduzida para o espanhol e o português, tornou-se referência para os autores católicos da América Latina e Brasil. Padre Leonel Franca foi o mais destacado representante do neotomismo no Brasil. O movimento neotomista perdeu força durante o pontificado de Pio XII.


Disponibilizaremos neste artigo, mais abaixo, o Motu Proprio Doctoris Angelici (1914) de São Pio X, as Encíclicas Aeterni Patris (1879) de Leão XIII e Studiorum ducem (1925) de Pio XI.


Oração a Santo Tomás


Inefável Criador, que dos tesouros de Tua sabedoria designaste três hierarquias de Anjos e os colocaste em admirável ordem no alto dos céus e dispuseste as diversas porções do universo em tão maravilhoso arranjo, Tu que és chamado a Verdadeira Fonte de Luz e supereminente Princípio de Sabedoria, tenha o prazer de lançar um raio de Teu esplendor sobre a escuridão de minha mente e dissipar de mim a dupla escuridão de pecado e ignorância na qual nasci.


Tu, que tornas eloquente a língua das crianças, modela minhas palavras e derrama sobre meus lábios a graça de Tua bênção. Conceda-me discernimento para entender, capacidade de reter, método e facilidade no estudo, sutileza na interpretação e abundante graça de expressão. Ordene o começo, dirija o progresso e aperfeiçoe a realização de minha obra, Tu que és verdadeiro Deus e Homem e vives e reinas para todo o sempre. Amém.


 

MOTU PROPRIO DOCTORIS ANGELICI


Sua Santidade Pio X

(1914)


SOBRE OESTUDO DA DOUTRINA DE SANTO TOMÁS DE AQUINO


A filosofia escolástica, base dos estudos sagrados


Nenhum católico sincero pode pôr em dúvida a seguinte afirmação do Doutor Angélico: Regulamentar o estudo compete, de modo particular, à autoridade da Sé Apostólica, que governa a Igreja universal, e a isto provê por meio de um plano geral de estudos (1). Em várias ocasiões cumprimos com este magno dever de Nosso ofício, principalmente quando em nossa carta Sacrorum antistitum, de 1 de setembro de 1910, nos dirigíamos a todos os Bispos e aos Superiores das Ordens Religiosas, que têm o dever de atender à educação dos seminaristas, e os advertíamos: “No que se refere aos estudos, queremos e mandamos taxativamente que como fundamento dos estudos sagrados se ponha a filosofia escolástica… É importante notar que, ao prescrever que se siga a filosofia escolástica, Nos referimos principalmente ao que ensinou Santo Tomás de Aquino: tudo o que Nosso Predecessor decretou acerca dela queremos que continue em vigor e, para o caso de ser necessário, repetimo-lo e confirmamo-lo, e mandamos que se observe estritamente por todos. Os Bispos deverão, no caso de haver-se descuidado disto nos Seminários, urgir e exigir que de agora em diante se observe. Igualmente o ordenamos aos Superiores das Ordens Religiosas”.


Referimo-nos aos princípios de Santo Tomás


Como dissemos que havia que seguir principalmente a filosofia de Santo Tomás, e não dissemos unicamente, alguns creram cumprir com Nosso desejo, ou ao menos creram não ir contra este desejo Nosso, ensinando a filosofia de qualquer dos Doutores escolásticos, ainda que opostas aos princípios de Santo Tomás. Mas se equivocam plenamente. Está claro que, ao estabelecer como principal guia da filosofia escolástica a Santo Tomás, nos referimos de modo especial a seus princípios, nos quais esta filosofia se apoia. Não se pode admitir a opinião de alguns já antigos, segundo a qual é indiferente, para a verdade da Fé, o que cada um pense sobre as coisas criadas, desde que a ideia que se tenha de Deus seja correta, já que um conhecimento errôneo acerca da natureza das coisas leva a um falso conhecimento de Deus; por isso se devem conservar santa e invioladamente os princípios filosóficos estabelecidos por Santo Tomás, a partir dos quais se aprende a ciência das coisas criadas de maneira congruente com a Fé (2), se refutam os erros de qualquer época, se pode distinguir com certeza o que somente a Deus pertence e não se pode atribuir a nada mais (3), se ilustra com toda a clareza tanto a diversidade como a analogia que existem entre Deus e suas obras. O Concílio Lateranense IV expressava assim tal diversidade e tal analogia: “quanto mais semelhança se afirme entre o Criador e a criatura, mais se há de afirmar a dessemelhança”(4).


Estes princípios são como o fundamento de toda ciência


Ademais, falando em geral, estes princípios de Santo Tomás não encerram outra coisa que o que já haviam descoberto os mais importantes filósofos e Doutores da Igreja, meditando e argumentando sobre o conhecimento humano, sobre a natureza de Deus e das coisas, sobre a ordem moral e a consecução do fim último. Com um engenho quase angélico, desenvolveu e acrescentou toda essa quantidade de sabedoria recebida dos que o haviam precedido, empregou-a para apresentar a doutrina sagrada à mente humana, para ilustrá-la e para dar-lhe firmeza (5); por isso, a sã razão não pode deixar de tê-la em conta, e a Religião não pode consentir em que seja menosprezada. Tanto mais que, se a verdade católica se vir privada da valiosa ajuda que lhe prestam estes princípios, não poderá ser defendida buscando, em vão, elementos nessa outra filosofia que compartilha, ou ao menos não refuta, os princípios em que se apoiam o Materialismo, o Monismo, o Panteísmo, o Socialismo e as diversas classes de Modernismo. Os pontos mais importantes da filosofia de Santo Tomás não devem ser considerados como algo opinável, que se possa discutir, senão que são como os fundamentos nos quais se assenta toda a ciência do natural e do divino. Se forem rechaçados estes fundamentos ou se forem pervertidos, seguir-se-á necessariamente que aqueles que estudam as ciências sagradas nem sequer poderão captar o significado das palavras com que o magistério da Igreja expõe os dogmas revelados por Deus.


Por isto quisemos advertir aos que se dedicam a ensinar a filosofia e a sagrada teologia que, se se afastam do caminho de Santo Tomás, principalmente em questões de metafísica, não o fará sem graves danos.


Este é Nosso pensamento

Julgamos Nosso dever Apostólico expor e ordenar tudo isto, para que em assunto de tanta importância todas as pessoas que pertencem tanto ao Clero regular como ao secular considerem seriamente qual é Nosso pensamento e para que o ponham em prática com decisão e diligência. Porão nisto particular empenho os professores de filosofia cristã e da sagrada teologia, que devem ter sempre presente que não será lhes dada a faculdade de ensinar para que exponham a seus alunos opiniões pessoais que tenham acerca de sua disciplina, senão para que exponham as doutrinas plenamente aprovadas pela Igreja.

Concretamente, no que se refere à sagrada teologia, é Nosso desejo que seu estudo se leve a cabo sempre à luz da filosofia que citamos; nos Seminários, com professores competentes, poder-se-ão utilizar livros de autores que exponham de maneira resumida as doutrinas tomadas de Santo Tomás; estes livros, quando estão bem elaborados, são muito úteis.


Utilizar o texto da Summa Theologica


Mas, quando se trata de estudar mais profundamente esta disciplina, como se deve fazer nas Universidades, nos Ateneus e em todos os Seminários e Institutos que têm a faculdade de conferir graus acadêmicos, é absolutamente necessário – como sempre se fez e nunca se deve deixar de fazer – que nas aulas sejam explicadas com a própria Summa Theologica: os comentários deste livro farão que se compreendam com maior facilidade e que recebam melhor luz os decretos e os documentos que a Igreja docente publica. Nenhum Concílio celebrado posteriormente à santa morte deste Doutor deixou de utilizar sua doutrina. A experiência de tantos séculos manifesta a verdade do que afirmava Nosso Predecessor João XXII:

“(Santo Tomás) deu mais luz à Igreja que todos os demais Doutores: com seus livros um homem aproveita mais em um ano que com a doutrina dos outros em toda a sua vida” (6).

São Pio V voltou a afirmar isto mesmo ao declarar Doutor da Igreja universal a Santo Tomás no dia de sua festa: “A providência de Deus onipotente quis que, desde que o Doutor Angélico foi incluído no elenco dos Santos, por meio da segurança e verdade de sua doutrina se fizessem desaparecer, desarticuladas e confundidas, muitas das heresias que surgiram, como se pôde comprovar já desde muito tempo e, recentemente, no Concílio de Trento; por isso estabelecemos que sua memória seja venerada com maior agradecimento e piedade que até agora, pois por seus méritos a Terra inteira se vê continuamente livre de erros deletérios” (7). E, por fazer referência a outros elogios, entre muitos outros, que lhe dedicaram Nossos Predecessores, trazemos a colação gozosamente as de Bento XIV, cheias de louvores a todos os escritos de Santo Tomás, particularmente a Summa Theologica: “Muitos Romanos Pontífices, predecessores Nossos, honraram sua doutrina [a de Santo Tomás], como fizemos Nós mesmos nos diferentes livros que escrevemos, depois de estudar e assimilar com afinco a doutrina do Doutor Angélico, e sempre aderimos gozosamente a ela, confessando com toda a simplicidade que, se há algo bom nesses livros, não se deve de nenhum modo a Nós, senão que se há de atribuir ao Mestre” (8).

Assim, “para que a genuína e íntegra doutrina de Santo Tomás floresça no ensino, para o quê teremos grande empenho”, e para que desapareça “a maneira de ensinar que tem como ponto de apoio a autoridade e o capricho de cada mestre” e que, por isso mesmo, “tem um fundamento instável, que dá origem a opiniões diversas e contraditórias… não sem grave dano para a ciência cristã” (9), queremos, mandamos e preceituamos que aqueles que chegam ao ensinamento da sagrada teologia nas Universidades, Liceus, Colégios, Seminários, Institutos que por indulto apostólico tenham a faculdade de conferir graus acadêmicos utilizem como texto para suas lições a Summa Theologica de Santo Tomás, e exponham suas lições na língua latina; e deverão levar a efeito esta tarefa interessando-se em que os ouvintes se afeiçoem a este estudo.

Isto já se faz em muitos Institutos, e é de louvar; também foi desejo dos Fundadores das Ordens Religiosas que em suas casas de formação assim se fizesse, com a decidida aprovação de Nossos Predecessores; e os homens santos posteriores a Santo Tomás de Aquino não tiveram outro supremo mestre na doutrina que a Tomás. Desta forma, e não de outra, não só se conseguirá restituir à teologia sua primigênia categoria, senão que também às demais disciplinas sagradas se conferirá a importância que cada uma tem e todas elas reverdecerão.


Medidas disciplinares

Por tudo isso, doravante não se concederá a nenhum Instituto a faculdade de conferir graus acadêmicos na sagrada teologia se não se cumprir fielmente o que nesta carta prescrevemos. Os Institutos ou Faculdades, as Ordens e Congregações Religiosas que já tem legitimamente a faculdade de outorgar graus acadêmicos ou outros títulos em teologia, ainda que seja somente dentro da própria instituição, serão privados dessa faculdade ou a perderão se, no prazo de três anos, não se adaptarem escrupulosamente a estas prescrições Nossas, ainda que não possam cumpri-las sem nenhuma culpa por sua parte.

Estabelecemos tudo isto, sem que nada obste em contrário.


Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 29 de junho de 1914, ano undécimo de Nosso Pontificado.

PIO PP. X


Notas:

1) Opúsculo Contra impugnantes Dei cultum et religionem, c. III.

(2) Contra Gentiles, II, c. III y II..

(3) Ibidem, c. III; y 1, 9. XII, a 4; y 9 LIV, a I.

(4) Decretal II Damnamus ergo, etc. Cfr. Santo Tomás, Questões disputadas “De scientia Dei”, art. 11.

(5) Boecio, De Trinitate, 9. II, art. 3.

(6) Alocução no Consistório, 1318.

(7) Bula Mirabilis Deus, 11/4/1557.

(8) Actas Cop. Gen. O.P., tomo IX, p. 196.

(9) Leão XIII, Carta Qui te, 19/6/1886.



 


Sua Santidade Leão XIII

(1879)


A TODOS OS PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS DE TODO O MUNDO CATÓLICO EM AÇÃO E COMUNHÃO COM A SANTA SÉ APOSTÓLICA: SOBRE A RESTAURAÇÃO DA FILOSOFIA CRISTÃ CONFORME A DOUTRINA DE SANTO TOMÁS DE AQUINO


Veneráveis Irmãos, saúde e Bênção Apostólica.


INTRODUÇÃO


1 – O Filho Unigênito do Pai Eterno, que apareceu no mundo para trazer ao gênero humano a salvação e a luz da sabedoria divina, concedeu certamente ao mundo um grande e admirável benefício, quando, antes de subir ao céu, mandou aos Apóstolos que fossem e ensinassem todas as nações; e deixou a Igreja estabelecida por Ele como mestre comum e supremo dos povos (Mat. 28, 19). Pois que os homens, libertados pela verdade, na verdade se deviam conservar; nem seriam muitos duradouros os frutos das doutrinas celeste pelos quais o homem alcançara a salvação, se Cristo Nosso Senhor não tivesse estabelecido um magistério perpétuo para instruir os entendimentos na fé.


A Igreja, porém, já confiando nas promessas do seu divino autor, já imitando-lhe a caridade, de tal sorte cumpriu essas ordens, que sempre teve em vista, sempre desejou ardentemente ensinar as coisas da religião e combater perpetuamente os erros. A este fim visam os trabalhos esmerados de cada um dos bispos; a este fim, as leis e decretos dos Concílios, e especialmente a solicitude cotidiana dos Pontífices Romanos, os quais, como sucessores no primado de São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, têm o direito e o dever de ensinar e confirmar seus irmãos na fé.


2 – Acontecendo, porém, como diz o Apóstolo, que, pela “filosofia e pelos discursos sedutores” (Col. 2,8) as almas dos fiéis costumam ser enganadas, e a sinceridade da fé ser corrompida nos homens, por isso os supremos pastores da Igreja julgaram sempre ser dever seu promover, quanto pudessem, a verdadeira ciência, e ao mesmo tempo providenciar com suma vigilância, para que todas as disciplinas humanas, especialmente a filosofia, da qual em grande parte depende o bom uso das outras ciências, fossem ensinadas em toda a parte segundo a norma da fé católica. Isso mesmo, em outras coisas já vos lembramos de passagem, Veneráveis Irmãos, quando pela primeira vez vos falamos por Cartas Encíclicas.


3 – Agora, porém, em razão da gravidade do assunto e da condição dos tempos, somos obrigados a falar-vos de novo a fim de estabelecermos o método dos estudos filosóficos, que, correspondendo ao bem da fé, seja acomodado à mesma dignidade das ciências humanas.


4 – Se alguém atender à malícia dos nossos tempos e pensar na razão das coisas que acontecem pública ou particularmente, concluirá certamente que a causa fecunda dos males, não só daqueles que nos oprimem, mas também daqueles que receamos, consiste nas más opiniões à cerca das coisas divinas e humanas, que, partindo primeiro das escolas dos filósofos, têm invadido todas as ordens da sociedade, acolhidas pelos aplausos de muitos. Porquanto, sendo próprio da natureza humana seguir, na prática, como guia a razão, se a inteligência peca em qualquer coisa, a vontade também cai facilmente. Acontece, então, que a malícia das opiniões, que têm sede na inteligência, influi nas ações humanas e as perverte. Pelo contrário, se for reto o pensar dos homens, e baseado em sólidos e verdadeiros princípios, nesse caso há de produzir muitos benefícios para felicidade social e individual.


5 – Certamente que não atribuímos à filosofia humana tão grande força e autoridade, que a julguemos capaz de expulsar e arrancar totalmente todos os erros: porque, assim como quando se estabeleceu a religião cristã, pela admirável da fé difundida “não por palavras persuasivas da sabedoria humana, mas pela demonstração de espírito e virtude” (Cor. 2,4), o mundo foi restituído à primitiva dignidade; assim agora se deve esperar, principalmente da onipotente virtude e auxílio de Deus que as almas dos homens, dissipadas as trevas dos erros, sigam melhor vida.


Não se devem desprezar nem desconsiderar, porém, os auxílios naturais, que por benefício da sabedoria divina, que tudo dispõe forte e suavemente, superabundam ao gênero humano: e entre esses auxílios é certo que o principal é o reto uso da filosofia. Pois que não foi em vão que Deus concedeu à alma humana a luz da razão. A luz da fé que depois lhe foi acrescida, longe de extinguir ou diminuir a força da inteligência, antes a aperfeiçoa e, aumentando-lhe as forças, a habilita para maiores coisas.


Pede, pois, a economia da mesma Providência Divina que, tratando-se de chamar os povos à fé e à Salvação, se aproveite à cooperação da ciência humana. Porque esse modo de proceder provado e sábio, fora seguido pelos preclaríssimos Padres da Igreja, está confirmando pelos monumentos da antiguidade. Eles, em verdade, atribuíram sempre à razão muita e não pequena importância, a qual resumiu suscintamente Santo Agostinho, atribuindo a esta ciência “aquilo por meio do que a fé salubérrima… é produzida, nutrida, defendida e robustecida” (De Trin. lib. XIV,l).


PRIMEIRA PARTE: RELACIONAMENTO ENTRE RAZÃO E FÉ


6 – Em primeiro lugar, a filosofia sendo bem compreendida, pode em certo modo aplainar e fortificar o caminho para a verdadeira fé, e preparar convenientemente a inteligência dos seus discípulos para receberem a Revelação, visto que com razão é chamada pelos antigos umas vezes “instituição prévia para a religião cristã” (Clem. Alex., Strom. lib. I, 16), outras vezes “prelúdio e auxilio do cristianismo” (Orig. ad GregThaum.), e também é chamada “pedagogo para o Evangelho” (Clem. Alex., Strom. I, 5).


Realmente Deus benigníssimo, no que diz respeito às coisas divinas, não só revelou com luz da fé aquelas verdades que a inteligência humana não pode atingir, mas também manifestou algumas que não são absolutamente inacessíveis à razão, para que, com a autoridade de Deus, logo fossem compreendidas por todos sem receio de errar. Donde resulta que os mesmos sábios pagãos, só com a luz da razão, conheceram, demonstraram e defenderam com apropriados argumentos certas verdade, que nos são propostas pela fé ou estão estritamente unidas com a doutrina da fé. “Pois as coisas d’Ele, que são invisíveis, se vêem depois da criação do mundo, considerando-as pelas obras que foram feitas, ainda a Sua virtude sempiterna e a Sua divindade” (Rom. 1,20); e os gentios que não “têm lei. ..mostram, todavia, a obra da lei escrita em seus corações” (Rom. 2,15). É muito conveniente que essas verdades, conhecidas mesmo pelos sábios pagãos, sejam convertidas em proveito e utilidade da doutrina revelada, a fim de se demonstrar que a sabedoria humana e os próprios testemunhos dos adversários prestam a homenagem à fé cristã.


7 – É coisa sabida que este modo de proceder não é novo, mas antigo, e muito usado pelos Santos Padres da Igreja. Além disso, essas veneráveis testemunhas e guardas das tradições religiosas reconhecem certa forma e, uma espécie de figura desse procedimento no fato dos hebreus, que, tendo de sair do Egito, receberam a ordem de levar consigo os vasos de prata e ouro, bem como os vestidos preciosos dos egípcios, para que essas coisas fossem dedicadas à verdadeira divindade, apesar de terem antes servido a ritos vergonhosos e cheios de superstição. Gregório de Neocesaréia (Orat. paneg. ad Origen.) louva Orígenes, por isso que, tendo este extraído com engenhosa habilidade muitas verdades dos pagãos, considerando-as como armas arrebatadas aos inimigos, serviu-se delas. Com singular engenho para defesa da sabedoria cristã e para refutação da superstição. Igualmente Gregório Nazianzeno (Vit. Moys). E Gregório Nisseno louva e aprovam o mesmo costume de disputar de Basílio Magno (Carm. I, Iamb. 3); porém São Jerônimo encarecidamente o recomenda em Quadrato, discípulo dos Apóstolos, em Aristides, em Justino, em Irineu, e em muitíssimos outros. (Epist. ad Magn.). E Agostinho diz: “Não vemos nós com quanto ouro e prata luxuosamente vestido, saiu do Egito Cipriano, doutor sua víssimo e felicíssimo mártir? E como saiu Lactâncio? E Vitorino, Optato e Hilário? E para não enumerar os vivos, como saíram inumeráveis gregos?” (De doctr. christ. I, II. 40).

Ora, se a razão natural produziu essa abundante colheita de doutrina, antes de ser fecundada pela virtude de Cristo, com certeza mais abundante colheita produzirá depois que a graça do Salvador restabeleceu e aumentou as faculdades naturais da alma humana. E quem não verá como por esse modo de filosofar se abre para a fé um caminho plano e fácil?


SUBSÍDIOS DA FILOSOFIA PARA A FÉ


8 – Porém não é nesses limites que se circunscreve a utilidade que provém desse modo de filosofar. Realmente, nas palavras da divina sabedoria se repreende asperamente a loucura desses homens que “por aquelas coisas que se viam serem bens, não puderam compreender Aquele que é; e que, não atendendo às obras, desconheceram quem era o artífice” (Sab. 13, 1).


9 – Portanto o grande e excelente fruto que em primeiro lugar colhemos da razão humana, é demonstrar que Deus existe: “porque pela grandeza da imagem e da criatura pode chegar-se sem dúvida ao Criador delas” (Sab. 5, 5). Depois mostra-nos que em Deus se reúnem singularmente todas as perfeições, sobressaindo sua infinita sabedoria, à qual nada pode, ocultar-se, e sua suprema justiça, que de nenhum mal afeto pode ser eivada, e que por isso Deus não só é verdadeiro, mas é a própria verdade que não pode enganar-se, nem enganar-nos. Donde evidentemente se deduz, que a razão humana presta à palavra de Deus pleníssima fé e autoridade.


10 – Semelhantemente a razão declara que a doutrina evangélica, logo desde a sua origem resplandecera com admiráveis milagres, como argumentos certos da verdade certa, e que por isso, todos aqueles que acreditam no Evangelho não acreditam temerariamente, como quem segue engenhosas fábulas (2 Ped. 1, 16); mas sujeitam sua inteligência e juízo à autoridade divina por uma submissão inteiramente racional. O que, porém, não é de menos valor, é que a razão prova claramente que a Igreja instituída por Cristo (como definiu o Concílio Vaticano) “por causa da sua admirável propagação, exímia santidade e, inexaurível fecundidade em toda a parte, por causa da unidade católica e firmeza invencível, é um grande e perpétuo motivo de credibilidade, e um testemunho irrefragável da sua divina missão” (Const. Dog. de Fid Cath. 3) .


11 – Lançados destarte, os firmíssimos alicerces, ainda se requer um continuado e múltiplo uso da filosofia para que a sagrada teologia admita e receba a natureza, hábito e engenho da verdadeira ciência. Porque nessa nobilíssima disciplina é grandemente necessário que muitas e diversas partes das doutrinas celestes se reúnam em um corpo, a fim de que, convenientemente dispostas, cada qual em seu lugar, e derivadas de princípios próprios, permaneçam estritamente unidas entre si; e, enfim, que todas e cada uma delas sejam confirmadas com argumentos próprios e irrefutáveis.


12 – Não devemos também passar em silêncio, nem ter em pouco aquele conhecimento mais esmerado e mais fecundo das coisas que se crêm, bem como a inteligência, mais calara que ser possa, dos mesmos mistérios da fé, tão louvada e seguida por Agostinho e outros Padres, e que o mesmo Concílio Vaticano definiu que era frutuosíssima. Este conhecimento e inteligência é, sem dúvida, mais plena e facilmente adquirido por aqueles que, à integridade da vida e ao estudo da fé, acrescentam um engenho exercitado nas disciplinas filosóficas, principalmente ensinando o mesmo Concílio Vaticano que a inteligência dos sagrados dogmas convém ser deduzida “ora da analogia das coisas que se conhecem naturalmente, ora da conexão dos mesmos mistérios entre si e com o fim último do homem” (Const. Dogm. de Fid. Cath. 20).


13 – Finalmente, pertence também à filosofia defender religiosamente as verdades divinamente reveladas e resistir aos que ousam opor-se-lhes. Para isto, de muito serve a filosofia, que é considerada como o baluarte da fé e firme defesa da religião. “A doutrina do Salvador, diz Clemente de Alexandria, é perfeita em si e não carece de ninguém, porque é virtude e sabedoria de Deus. A filosofia humana não faz mais poderosa a verdade; mas, enfraquecendo os argumentos dos sofistas contra ela e pulverizando os maliciosos estratagemas contra a verdade, com razão é chamada sebe e estacada da vinha “ (Strom. lib. 1, 20). Na verdade, assim como os inimigos do nome católico, para combater a religião, se servem de armas quase, sempre extraídas da razão filosófica, assim os defensores da divina ciência tiram do depósito da filosofia muitos argumentos para defenderem os dogmas da Revelação. Nem se pense que é mesquinho triunfo da fé cristã, por isso que a razão humana rebate vigorosa e facilmente as armas dos adversários, adquiridas com o auxílio da mesma razão, com o fim de fazer mal. São Jerônimo, escrevendo a Magno, diz que essa espécie de combate religioso fora adotado pelo mesmo Apóstolo das Gentes: “Paulo, guia do exército cristão, e, invencível orador, combatendo por cristo, aproveita com muita arte, para argumento da fé, uma inscrição casual; porque aprendera do verdadeiro Davi a arrancar as armas ao inimigo, e a decepar a cabeça do soberbíssimo Golias, com sua própria espada” (Epist. ad Magn.). Além disso, a mesma Igreja exorta e manda que os doutores cristãos se aproveitem desse auxílio da filosofia. O Concílio Lateranense V, tendo definido “que, toda a aversão contrária à fé revelada é absolutamente falsa, porque a verdade não pode estar em contradição com a verdade” (Bulla Apostolici Regiminis), manda os doutores da filosofia que tratem com empenho de refutar os argumentos falsos; pois que, como afirma Santo Agostinho “se a razão se opõe à autoridade das Escrituras Divinas, por muito especiosa que seja, engana-se com a semelhança da verdade, porque não pode ser verdadeira” (Epist. 143, 7).


SUBSÍDIOS DA FÉ PARA A FILOSOFIA


14 – Para que a filosofia, porém, produza os preciosos frutos que temos lembrado, é indispensável que jamais se afaste da senda, seguida pelos antigos Padres, e aprovada pelo Concílio Vaticano com solene autoridade. E assim, quando claramente conhecemos que, por motivos sobrenaturais, devemos receber quaisquer verdades, que são muito superiores à capacidade de qualquer engenho, a razão humana, conhecendo sua fraqueza, não ouse passar avante, nem negar essas verdades, nem compreendê-las, nem interpretá-las livremente; mas aceitando-as com absoluta e humilde fé, e considerando como grande honra ser lhe permitido seguir, à maneira de serva e criada, as doutrinas celestes, e por benefício de Deus atingi-las de algum modo.


15 – Naquelas doutrinas, porém, que a inteligência humana pode compreender naturalmente, é sem dúvida justo que, a filosofia empregue o seu método, seus princípios e argumentos. Não, porém, de modo que pareça ter a audácia de subtrair-se à autoridade divina. Pelo contrário, como é sabido que as coisas que a Revelação ensina se baseiam em verdades inconcussas, e que aquela que se opõe à fé repugnam igualmente com a reta razão, saiba o filósofo católico que violará os diretos da fé, não menos que os da razão, se adotar conclusões que conhece estarem em contradição com a doutrina revelada.


16 – Bem sabemos que não faltam homens que, exaltando demasiadamente as faculdades da natureza humana, asseveram que a nossa inteligência, logo que se sujeita à autoridade divina, desce da dignidade natural, e como que curvada debaixo do jugo da escravidão é de tal sorte sopeada e impedida, que não pode atingir o ápice da verdade e da perfeição. Essas palavras, porém, estão repletas de erro de dolo, e o fim a que visam é que os homens, com suma loucura e não sem crime de ingratidão, desprezem as verdades mais elevadas e respeitem espontaneamente o divino benefício da fé, da qual têm emanado ainda, sobre a sociedade civil, torrentes de todos os bens. Porque, estando o espírito humano encerrado dentro de certos e muito apertados limites, está sujeito a muitos erros e à ignorância de muitas coisas, pelo contrário, baseada na autoridade de Deus, a fé cristã é mestra seguríssima da verdade. Quem a segue, nem é envolvido pelo erro, nem agitado nas vagas de opiniões incertas.


17 – Por isso, os que harmonizam o estudo da filosofia com a obediência à fé cristã, raciocinam otimamente, até porque o esplendor das verdades divinas, recebido na alma, ajuda a mesma inteligência, e bem longe de ofendê-la em sua dignidade, lhe dá muita nobreza, penetração e firmeza. Quando, porém, aplicam a penetração do espírito a refutar a sentenças que repugnam à fé e a provar as coisas que com a fé se conformam, exercitam muito digna e utilmente a razão. Porque, nas primeiras, descobrem as causas do erro, e conhecem o defeito dos argumentos em que as mesmas se fundam. Nestas, porém, gozam da consideração das razões com que solidamente são demonstradas e podem ser persuadidas a qualquer homem prudente. Quem negar que com esse processo e exercício se aumentam as riquezas do entendimento, e se desenvolvem as suas faculdades, há de necessariamente cair no absurdo de afirmar que a distinção do verdadeiro e do falso não conduz de forma alguma ao adiantamento do engenho. Com razão, portanto o Concílio Vaticano lembra os grandes benefícios que a fé presta à razão nas seguintes palavras: “A fé livra e defende dos erros a razão, e a instrui com muitos ensinamentos” (Const. Dogm. de Fid. Cathol. 4). E por isso o homem, se fosse verdadeiramente sábio, não deveria culpar a fé como inimiga da razão e das verdades naturais, mas antes deveria dar graças a Deus e alegrar-se grandemente, porque, entre tantas causas da ignorância e no meio das vagas do erro, lhe apareceu rutilante, a santíssima luz da fé, a qual, como astro amigo, lhe mostra o porto da verdade, sem perigo algum de errar.


SEGUNDA PARTE: HARMONIA ENTRE RAZÃO E FÉ CONSIDERADA NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA


18 – Se atenderdes, Veneráveis Irmãos, à história da filosofia, sabereis que na realidade se provam todas as coisas que até aqui temos dito. Na verdade, ainda os mais sábios dos antigos filósofos, que careceram do benefício da fé, erraram muitíssimo e em muitas coisas. Porque, não ignorais que, entre algumas verdades, ensinaram muitas vezes coisas falsas e errôneas, muitas coisas incertas e duvidosas acerca da verdadeira noção da divindade, da primitiva origem das coisas, do governo do mundo, do conhecimento divino do futuro, da causa e princípio dos males, do último fim do homem, da eterna bem-aventurança, das virtudes e vícios: de outras doutrinas, cujo conhecimento verdadeiro exato é mais que tudo necessário ao gênero humano. Porém os primeiros Padres e Doutores da Igreja, que muito bem sabiam, pelo conselho da vontade divina, que o reparador da própria ciência humana era Cristo, que é “virtude e sabedoria de Deus” (I Cor. 1, 24), e “no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedora e da cicia” (Col. 2, 3) empreenderam investigar os livros dos sábios antigos e confrontar as suas opiniões com as doutrinas reveladas; e por uma prudente escolha adotaram o que nelas parecia conforme com a verdade, emendando ou desprezando tudo o mais. Porque Deus providentíssimo, assim como suscitou para a defesa da Igreja, e contra a crueldade dos tiranos, mártires fortíssimos e cheios de magnanimidade, assim também opôs aos falsos filósofos e aos hereges homens extraordinários em sabedoria, que se valeram do tesouro da verdade, bem como do auxílio da razão humana.


Assim, desde os princípios da Igreja os opôs contra ferrenhos adversários, que zombando dos dogmas e costumes dos cristãos, estabeleciam que havia muitos deuses, que a matéria do mundo não tinha um princípio nem causa, que a ordem das coisas estava numa força cega e numa necessidade fatal, e que não era dirigida pela divina providência.


Ora, logo a princípio pelejaram, contra tais mestres dessa louca doutrina, homens sábios, a quem damos o nome de Apologistas que, guiando-se primeiro que tudo pela fé, também tomaram da sabedoria humana argumentos pelos quais assentaram que se devia prestar culto a um só Deus revestido de todas as perfeições; que todas as coisas foram produzidas do nada por um poder onipotente, que obram pela sua sabedoria, e que cada uma delas é dirigida e movida para seus fins próprios.


Merece, entre esses, o primeiro lugar, São Justino, mártir, que depois de ter freqüentado as celebérrimas Academias dos gregos, viu que só das doutrinas reveladas é que pôde extrair a verdade, como ele mesmo confessa, e abraçando-as com todo o ardor da sua alma, as purificou das calúnias, defendeu-as veementemente e, eloquentemente diante dos Imperadores Romanos, e com elas harmonizou grande número de opiniões dos filósofos gregos. Também Quadrato e Aristides, Hérmias e Atenágoras eminentemente brilharam por esse tempo. Também não menor glória adquiriu para si, na defesa da mesma causa, Irineu, mártir invicto, Pontífice, da Igreja Lugdemense: o qual tendo valorosamente refutado as perversas opiniões dos orientais, espalhadas pelos gnósticos pelos limites do império romano, “explicou as origens de cada uma das heresias (como afirma Jerônimo), e de que fontes filosóficas emanavam” (Epist. ad Magn.). Ninguém, porém, ignora as disputas de Clemente Alexandrino, as quais o próprio Jerônimo honrosamente celebra assim: “Que há nelas de ignorância? E mesmo que há aí que não provenha do seio mesmo da filosofia?” (Loc. cit.). O mesmo com uma variedade pasmosa escreveu muitas coisas utilíssimas para estabelecer a história da filosofia, para exercitar convenientemente a dialética, para conciliar a harmonia da razão com a fé. Segue-se-lhe Orígenes, insigne mestre da escola de Alexandria, muito instruído nas doutrinas gregas e orientais, que publicou muitos e magníficos volumes, utilíssimos para explanar as divinas Escrituras e esclarecer os dogmas sagrados. Ainda que esses livros, tais quais agora existem, não estão totalmente isentos de erros, contêm, todavia, grande cópia de sentenças que multiplicam e robustecem as verdades naturais. Aos hereges opõe Tertuliano a autoridade das Sagradas Escrituras; aos filósofos, mudando de armas, opõe-lhes a filosofia. A estes refuta, com tanta sutileza e erudição, que não teme lançar-lhe em rosto este desafio: “Não me podeis igualar em ciência nem em doutrina como julgais” (Apologet. § 46). Arnóbio, em seus livros publicados contra os gentios, e Lactâncio, principalmente em suas Instituições divinas, empregam igual eloquência e valor para persuadir aos homens os dogmas e preceitos da sabedoria católica; e longe de transtornar a filosofia, como costumam fazer os Acadêmicos, servem-se, para os convencer: (Inst. VII, 7) ora das suas armas, ora as que se deduzem das questões intestinas dos filófofos (De Opif. Dei, 21).


19 – Os escritos que, acerca da alma humana, dos atributos divinos e de outras questões de gravíssima consideração, deixaram o grande Atanásio e Crisóstomo, príncipe dos oradores, são tão excelentes que, na opinião comum, parece que nada se pode acrescentar à sua profundidade e abundância. E para não alongar demais esta lista de grandes talentos, ajuntaremos aos que temos mencionado Basílio Magno, bem como os dois Gregórios, os quais saíram de Atenas, domicílio de toda a humanidade, abundantemente instruídos em todos os recursos da filosofia; e estes tesouros de ciência que cada um deles adquiria, ardentemente os empregaram em refutar os hereges e em ensinar os cristãos.


Parece, porém, que a primazia pertence, entre todos a Santo Agostinho, poderoso gênio, que penetrou profundamente em todas as ciências divinas e humanas, armado de uma fé suma e igual doutrina, combatendo sem descanso todos os erros de seu tempo. Que ponto da filosofia não tocou e não aprofundou? Descrevendo aos fiéis os mais altos mistérios da fé, prevenindo-os sempre contra os agressivos ataques de seus adversários; pulverizando as ficções dos acadêmicos e dos Maniqueus, assentou e consolidou os fundamentos da ciência humana. Com que riqueza e penetração tratou dos anjos, da alma, da inteligência humana, a vontade e livre arbítrio, da religião, da vida futura, do tempo, da eternidade e até da mesma natureza dos corpos sujeitos a mudanças!


Mais tarde, no Oriente, João Damasceno, seguindo os passos de Gregório Nazianzeno, e no Ocidente, Boécio e Anselmo, seguindo os de Agostinho, enriqueceram grandemente o patrimônio da filosofia.


20 – Finalmente, os Doutores da Idade Média, conhecidos pelo nome de Escolásticos, empreendem a obra colossal de recolher com cuidado aqui e ali a abundante messe da doutrina disseminada nas inumeráveis obras dos Santos Padres reduzindo-as a uma só obra, para uso e comodidade das gerações futuras.


E agora, Veneráveis Irmãos, podemos repetir as palavras com que Sixto V, Nosso Predecessor, explica com extensão a origem, o caráter e a excelência da doutrina escolástica: “Pela divina munificência d’Aquele que é o único a dar o espírito de ciência, de sabedoria e, de, inteligência, e que no decurso dos séculos, e segundo as necessidades, não cessa de enriquecer a sua Igreja com novos benefícios, de provê-la de novas e seguras defesa, nossos antecessores, homens de profunda ciência, inventaram a teologia escolástica. Principalmente, porém, dois gloriosos doutores, o Angélico Santo Tomás e o Seráfico São Boaventura, ambos professores ilustres nesta faculdade, são os que, com seu incomparável talento, com seu assíduo zelo, com seus trabalhos e vigílias, cultivaram esta ciência, enriquecendo-a e transmitindo-a a seus descendentes, disposta em uma ordem perfeita e explicada de muitos modos. E certamente o conhecimento de uma ciência tão saudável que dimana do fecundíssimo manancial das Escrituras, dos Sumos Pontífices, dos Santos: Padres e dos Concílios, tem sido em todos os tempos de grande, vantagem para a Igreja, já para a boa inteligência e verdadeira interpretação das Escrituras, já para ler e explicar os Padres com mais segurança e utilidade, já para desmascarar os variados erros e as heresias. Nesses últimos tempos, porém, que nos têm trazido os dias profetizados pelo Apóstolo, em que os homens blasfemos, orgulhosos, sedutores, fazem progresso no mal, errando eles e induzindo os outros ao erro, certamente que, para confirmar os dogmas da fé católica e refutar as heresias, é mais que nunca necessária a ciência de que tratamos” (Bulla Triumphantis, 1588).


Essas palavras, ainda que parece que atingem somente a teologia escolástica, estendem-se, todavia, à própria filosofia. Com efeito, as eminentes qualidades que tornam a teologia escolástica tão temível aos inimigos da verdade, a saber, continua o mesmo Pontífice: “ Aquela coerência tão estreita e perfeita dos efeitos e das causas, aquela ordem e simetria semelhante às de um exército em campanha, aquelas luminosas definições e distinções, aquela solidez de argumentação e sutileza de controvérsia, coisas todas por meio das quais se separa a luz das trevas, se distingue o verdadeiro do falso e as mentiras da heresia, despojadas do prestígio e das ficções que as rodeiam, aparecem a descoberto”; todas essas brilhantes qualidades, dizemos, se devem unicamente ao bom uso da filosofia que os doutores escolásticos adotaram, geralmente ainda nas controvérsias teológicas.


Além disso, como o caráter próprio e distintivo dos teólogos escolásticos é unir com o mais estreito laço a ciência divina e humana, a teologia em que se distinguiram não poderia certamente ter adquirido tanta honra e estima na opinião dos homens, se esses doutores tivessem pregado uma filosofia incompleta, truncada e superficial.


TERCEIRA PARTE: SANTO TOMÁS DE AQUINO CONCILIOU COM MÁXIMA PERFEIÇÃO RAZÃO E FÉ


21 – Porém, entre todos os doutores escolásticos, brilha, como astro fulgurante, e como príncipe e mestre de todos, Tomás de Aquino, o qual, como observa o Cardeal Caetano, “por ter venerado profundamente os santos doutores que o precederam, herdou, de certo modo, a inteligência de todos” (S. T. II II, 148, 4).


Tomás coligiu suas doutrinas, como membros dispersos de um mesmo corpo; reuniu-as, classificou-as com admirável ordem, e de tal modo as enriqueceu, que tem sido considerado, com muita razão, como o próprio defensor e a honra da Igreja.


De espírito dócil e penetrante, de fácil e segura memória, de perfeita pureza de costumes, levado unicamente pelo amor da verdade, prenhe de ciência divina e humana, justamente comparado com o sol, aqueceu a terra com a irradiação de suas virtudes e encheu-a com o resplendor de sua doutrina.


Não há um ponto da filosofia que não tratasse com tanta penetração como solidez. As leis do raciocínio, Deus e as substâncias incorpóreas, o homem e as outras criaturas sensíveis, os atos humanos e seus princípios, são objeto das teses que defende, nas quais nada falta, nem a abundante colheita de investigações, nem a harmoniosa coordenação das partes, nem o excelente método de proceder, nem a solidez dos princípios, nem a força dos argumentos, nem a lucidez de estilo, nem a propriedade da expressão, nem a profundidade e gentileza com que resolve pontos mais obscuros.


22 – Ainda mais: o Doutor Angélico buscou as conclusões filosóficas nas razões e princípios das coisas, que têm grandíssima extensão e encerram em seu seio o germe de quase infinitas verdades, para serem desenvolvidas em tempo oportuno e com abundantíssimo fruto pelos mestres dos tempos posteriores.


Empregando o mesmo procedimento na refutação dos erros, o santo Doutor chegou ao seguinte resultado: debelou todos os erros do tempo passado, e propiciou invencíveis armas para os que haviam de aparecer nos tempos futuros.


Além disso, ao mesmo tempo que distingue perfeitamente, como convém à fé e à razão, uni-as ambas pelos vínculos de mútua concórdia, conservando a cada uma seus direitos e salvando sua dignidade. Assim é que a razão, levada por Tomás até o píncaro humano, não pode elevar-se a maior altura. E a fé quase não pode esperar que a razão lhe preste mais numerosos e mais valentes argumentos do que aqueles que lhe forneceu Tomás de Aquino.


23 – Por isso, nos séculos passados, homens doutíssimos, de grande renome em teologia e filosofia, procurando com incrível empenho as obras de Tomás, se têm consagrado, não só a cultivar sua angélica sabedoria, mas também a imbuir-se inteiramente dela. É sabido que quase todos os fundadores e legisladores das Ordens Religiosas têm imposto a seus companheiros o estudo da doutrina de Santo Tomás e a cingirem-se a ela religiosamente, dispondo que a nenhum deles seja lícito separar-se impunimente, ainda em coisas pequenas, das pegadas deste grande homem. Para não falarmos da família de São Domingos, que se gloria do direito próprio de o ter por mestre, os Beneditinos, os Carmelitas, os Agostinianos, a Companhia de Jesus e muitas outras Ordens estão obrigadas a esta lei, como atestam os respectivos estatutos.


24 – E aqui se levanta jubilosamente o espírito a essas celebérrimas Academias e Escolas, que outrora floresceram na Europa, – de Paris, de Salamanca, de Alcalá, de Douai, de Tolosa, e Louvaina, de Pádua de Bolonha, de Nápoles, de Coimbra e outras muitas. Ninguém ignora que as consultas que se lhes faziam, nos mais importantes negócios, gozavam de grande autoridade em toda a parte. É também sabido que, naqueles grandes abrigos da sabedoria humana, Tomás reinava como um príncipe em seu próprio império, que todas as inteligências, as dos mestres e as dos discípulos, se curvavam com admirável consonância ao magistério e autoridade do Doutor Angélico.


25 – Mas, o que é mais, os Pontífices Romanos, Nossos Predecessores, têm honrado a sabedoria de Tomás de Aquino com singulares louvores e amplíssimas provas. Clemente VI, Nicolau V, Bento XIII e outros, atestam que a Igreja Universal é ilustrada pela sua admirável doutrina. São Pio V reconhece que a mesma doutrina, dissipando as heresias, as confunde e refuta, e que todos os dias livra o mundo de erros maléficos. Outros, como Clemente XII, afirmam que de seus escritos têm nascido abundantíssimos bens para a Igreja universal, e que devem ser honrados com o mesmo culto que é prestado aos maiores doutores da Igreja – Gregório, Ambrósio, Agostinho, Jerônimo. Outros, finalmente, não têm duvidado propor Santo Tomás às Academias e Escolas Superiores como modelo e mestre a quem podiam seguir com segurança. E a tal respeito merecem recordar-se aqui as palavras de São Urbano V à Academia de Tolosa: “Queremos, pelo teor das presentes mandamos que se sigais as doutrinas de Santo Tomás como verídicas e católicas e, que envideis todos os esforços para desenvolvê-las” (Cons. 5, 3.08.1368). Seguindo o exemplo de Urbano V, Inocêncio XII impõe as mesmas prescrições à Universidade de Louvaina, e Bento XIV, ao Colégio Dionisiano de Granada. A fim de pôr termo a essas decisões dos Sumos Pontífices acerca de S. Tomás de Aquino, acrescentaremos o seguinte testemunho de Inocêncio VI: “A doutrina de Santo Tomás tem sobre as outras, excetuando a canônica, a propriedade dos termos, o modo de expressão, a verdade das proposições, de sorte que os que a seguem nunca se vêem surpreendidos fora do caminho da verdade, e quem a combate tem sido sempre suspeito de erro” (Sermão de S. Tomás).


26 – Os próprios Concílios Ecumênicos, em que brilha a flor da sabedoria colhida em toda a terra, se têm ocupado sempre em prestar a Tomás de Aquino especial homenagem. Nos Concílios de Lião, de Viena, de Florença, do Vaticano, acreditar-se-ia ver Tomás tomar parte, presidir de certo modo às deliberações e decretos dos Padres Conciliares, e combater com grande vigor e com mais feliz êxito os erros dos gregos, dos hereges e dos racionalistas.

A maior honra, porém, prestada a Santo Tomás, só a ele reservada e que nenhum dos doutores católicos pode partilhar, provém dos Padres do Concilio Tridentino, quando fizeram que, no meio da santa assembléia, com o livros das Escrituras e com os decretos dos Papas, fosse colocada aberta sobre o mesmo altar a Suma Teológica de Tomás de Aquino para dela extrair conselhos, razões e decisões.


27 – Finalmente, outra palma parece ter sido reservada a este homem incomparável: ter sabido granjear dos mesmos inimigos do dogma católico o tributo de suas homenagens, de seus elogios e de sua admiração. Com efeito, é sabido que entre os principais promotores de heresias houve alguns que declararam, em alta voz, que suprimida a doutrina de Santo Tomás de Aquino se comprometiam a empreender uma luta vantajosa contra todos os doutores católicos e aniquilar a Igreja. Infundada esperança, mas não infundado testemunho.


QUARTA PARTE: RESTAURAÇÃO DA VERDADEIRA FILOSOFIA


28 – Sendo assim, Veneráveis Irmãos, todas as vezes que olhamos para a bondade, força e inegável utilidade dessa disciplina filosófica, tão amada de nossos pais, intendemos que tem sido uma temeridade o não haver continuado em todos os e lugares a honra que merece, principalmente tendo a filosofia escolástica em seu favor o largo uso, a opinião dos homens eminentes e, o que é o principal, a aprovação da Igreja.


Em lugar da doutrina antiga, uma espécie de novo método de filosofia se tem introduzido aqui e ali sem dar os saudáveis frutos que a Igreja e a sociedade civil desejam. Debaixo dos impulsos dos inovadores do século XVI, principiou-se a filosofar sem respeito algum pela fé, com plena licença para deixar voar o pensamento segundo o capricho e critério de cada um. Resultou naturalmente que os sistemas de filosofia se multiplicam de modo extraordinário, e que apareceram opiniões diversas e contraditórias até sobre os objetos mais importantes dos conhecimentos humano. Com a pluralidade de opiniões, chega-se facilmente à vacilação e à duvida; da dúvida, porém, ao erro é facílimo ao conhecimento humano o chegar, como todos sabem.


Os homens deixaram-se facilmente arrastar pelo exemplo, e a paixão da novidade invadiu, segundo parece, em alguns países, até o espírito dos filósofos católicos, os quais, desprezando o patrimônio da antiga sabedoria, preferiram edificar de novo a aperfeiçoar e acrescentar o antigo edifício, projeto esse pouco prudente e que causa grandes males à ciência. Portanto, estes variados sistemas, fundados unicamente na sua autoridade e no arbítrio de cada mestre particular, carecem de base sólida, e por conseguinte, em lugar dessa ciência segura, estável e robusta como a antiga, só podem produzir uma filosofia vacilante e sem consistência. E se tal filosofia carece de força para resistir aos assaltos do inimigo, a si mesma deve imputar as causas da sua fraqueza.


Ao dizer isso, não intendemos certamente censurar esses sábios avisados, que empregam na cultura filosófica o seu gênio, sua ambição e a riqueza de novas invenções, e compreendemos muito bem que todos esses elementos concorrem para o progresso da ciência. Devemos, porém, evitar com o maior cuidado desse engenho e dessa erudição os únicos ou principais da sua aplicação.


O mesmo se deve pensar da teologia sagrada. É bom que ela seja ajudada e ilustrada pela luz de uma variada erudição. É, porém, absolutamente necessário tratá-la com a seriedade dos escolásticos, a fim de que, com as forças reunidas da Revelação e da razão, não deixe de ser “o inexpugnável baluarte da fé” (Sixto V, Bulla cit.).


29 – É, pois, feliz aspiração a dos numerosos interessados pela filosofia, que, desejosos de empreender, nestes últimos anos eficazmente a sua restauração, se têm consagrado e, consagram ainda a utilizar a admirável doutrina de Tomás de Aquino e a devolver-lhe o antigo esplendor. Animados com o mesmo espírito vários membros de vossa ordem, Veneráveis Irmãos, têm entrado com ardor na mesma tarefa. É com alegria que o reconhecemos. Louvando-os com efusão, os exortamos a perseverar em tão grande empreendimento. Aos outros, advertimos que nada é mais conforme com o nosso coração e nada desejamos tanto senão vê-los oferecer ampla e copiosamente à juventude estudiosa as águas puríssimas da sabedoria que dimanam em torrentes contínuas do Doutor Angélico.


30 – Muitas razões provocam em Nós este ardente desejo. Primeiramente, como a fé cristã se vê diariamente, em nossos tempos, combatida pelas maquinações e sofismas de um falsa sabedoria, é necessário que todos os jovens, especialmente os que são educados para o serviço da Igreja, sejam nutridos com alimento forte dessa doutrina, para, fortes e munidos dessas armas, maduramente se acostumem a tratar com sabedoria e coragem a causa da religião, prontos sempre, como diz o Apóstolo, “a dar conta, a quem lha pedir, da esperança que existe em nós” (I Ped. , 5); assim como “a exortar em sã doutrina e convencer os que a contradizem “ (Tito 1, 9). Além disso, grande número de homens que “afastando o espírito da fé, desprezam instituições católicas e professam que seu único mestre guia é a razão. Para os curar e trazer à graça e ao mesmo tempo à fé católica, além do auxílio sobrenatural de Deus, nada mais vemos mais oportuno do que as sólidas doutrinas dos Padres e dos Escolásticos, que põem à vista inabaláveis bases da fé, sua origem divina, sua verdade certa, seus motivos de persuasão, os benefícios que tem feito ao gênero humano, sua perfeita harmonia com a razão, e isto com tanta força e evidência, quanta é necessária afazer curvar os espíritos mais rebeldes e mais obstinados.


31 – Todos vemos em que tristíssima situação está a família e a sociedade por causa da peste das opiniões perversas. Por certo que ambas gozariam de paz mais perfeita e de maior segurança, se nas Academias e nas escolas se ensinassem doutrinas mais sãs e mais conformes com o ensino da Igreja, ensino como se acha nas obras de Tomás de Aquino. O que ele ensina acerca da verdadeira natureza da liberdade em todos os tempos e, que, em nossos, degenerou em licenciosidade, o que a respeito da origem divina de qualquer autoridade, das leis e da sua força, do império paternal e justo dos grandes princípios, da obediência aos poderes superiores, da mútua caridade entre todos, o que acerca dessas coisas e de outras do mesmo gênero é tratado por S. Tomás, tem a maior e mais invencível força para lançar por terra esses princípios de um novo direito que todos conhecem ser perigoso à paz, à ordem e ao bem estar social.


32 – Finalmente, todos os conhecimentos humanos devem esperar grande incremento e grande defesa vindos dessa restauração dos estudos filosóficos que nós temos proposto.

Porque da filosofia, como sabedoria moderadora que é, costumam as belas artes tomar a sã razão e o reto método, e beber dela o seu espírito como de fonte comum da vida. De fato,

e por uma constante experiência se comprova que as artes liberais floresceram principalmente quando permaneceram incólumes a honra e o juízo da filosofia.


Contrariamente, têm sido relegadas ao esquecimento e ao desprezo, quando a filosofia tem decaído e se tem envolvido em erros e vãs sutilezas.


As mesmas ciências físicas que agora são de tanto valor, e que causam singular admiração em toda aparte com tantas maravilhosas invenções, não só nenhum dano hão de sofrer causado pelo restabelecimento da filosofia antiga, mas antes receberão muito auxílio. Pois que para o frutuoso exercício e incremento delas não basta só a consideração dos fatos e a contemplação da natureza, senão que, verificados os fatos, deve subir-se mais alto e procurar com todo o cuidado reconhecer a natureza das coisas corpóreas, investigar as leis que a obedecem e os princípios donde provém a ordem das mesmas, sua unidade no meio da verdade, e sua afinidade no meio da diversidade. Para cujas investigações é admirável a força, luz e auxílio que presta a filosofia escolástica, se for ensinada com lúcida inteligência.

A este respeito, apraz-nos consignar que só com grave injúria se pode atribuir à mesma filosofia o defeito de opor-se ao adiantamento e progresso das ciências naturais. Os escolásticos, com efeito, seguindo o parecer dos Santos Padres, tendo ensinado a cada povo que a inteligência só por meio das coisas sensíveis pode elevar-se ao conhecimento de seres incorpóreos e imateriais, têm compreendido por si mesmos que nada mais útil para o filósofo do que investigar atentamente os segredos da natureza, e aplicar-se por largo tempo ao estudo das coisas físicas. Isso mesmo fizeram eles. Santo Tomás, o Bem Aventurado Santo Alberto Magno e outros promotores da Escolástica, não se entregaram à contemplação da filosofia sem que também não dessem grande atenção ao conhecimento das coisas naturais. Antes, nessa ordem de conhecimentos, muitas das suas afirmações e dos seus princípios são aprovados pelos mestres modernos que reconhecem a sua exatidão. Além disso, mesmo neste nosso tempo, muitos e insignes doutores das ciências físicas têm dado público testemunho de que entre as afirmações certas e verdadeiras da física moderna e os princípios filosóficos da Escola, não existe contradição.


CONCLUSÃO


33 – Nós, pois, proclamando que é preciso receber de boa vontade e com reconhecimento tudo o que for sabidamente dito, ou utilmente descoberto seja por quem for, vos exortamos, Veneráveis Irmãos, com muito empenho, a que, para defesa e, exaltação da fé católica, para o bem social e para a promoção de todas as ciências, ponhais em vigor e deis a maior extensão possível, à preciosa doutrina de Santo Tomás. Dizemos doutrina de Santo Tomás, porque se se encontrar nos Escolásticos, alguma questão demasiado sutil, alguma afirmação inconsiderada, ou alguma coisa que não esteja em harmonia com as doutrinas experimentadas nos séculos posteriores, ou que seja finalmente destituída de probabilidade, não intentamos de modo algum propô-la para ser repetida em nossa época.


Quanto ao mais, diligenciem os mestres, cuidadosamente escolhidos por vós, fazer penetrar no espírito dos discípulos a doutrina de Santo Tomás; façam, sobretudo, notar claramente quanto esta é superior às outras em solidez e elevação. Que as Academias que tendes instituído ou houverdes de instituir para o futuro, expliquem esta doutrina a defendam e utilizem para refutação dos erros dominantes.


Para evitar, porém, que se aceite como verdadeiro o que é apenas hipotético, e que se beba como água pura o que não é, providencial para que a “sabedoria e Tomás se colha em seus próprios mananciais ou ao menos nos arroios que, saindo do próprio manancial, correm todavia claros e límpidos conforme o testemunho dos doutores. Dos arroios que se dizem derivar do manancial, mas que estão na realidade cheios de águas estagnadas e insalubres, afastai, com muito cuidado, o espírito dos jovens.


34 – Sabemos, porém, que todos os nossos esforços serão inúteis, Veneráveis Irmãos, se a nossa empresa não for secundada por Aquele que nas Escrituras é chamado “Deus das ciências” (I Reg. 2, 3). Elas nos advertem também “que todo o bem excelente, todo o dom perfeito vem de cima, descendo do Pai das luzes” (Pacob 1, 17). E mais: “Se alguém carece de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e não o lança em rosto, e ser-lhe-á dada” (I. c. 5, 5).


Nisto sigamos também os conselhos do Doutor Angélico que nunca se entregava ao estudo e ao trabalho sem que antes tivesse recorrido a Deus por meio da oração, e que ingenuamente confessava que, quanto sabia, o devia, não tanto a seu estudo e trabalho, como ao auxílio divino.


Roguemos, pois, a Deus todos juntos com espírito humilde e coração unânime que derrame sobre os filhos da Igreja o espírito de ciência e inteligência, lhes abre o sentir para entenderem a sabedoria.


Para obter, com maior abundância ainda, os frutos da bondade divina, interpondo para com Deus o onipotente auxílio da Bem Aventurada Virgem Maria, sede da sabedoria, recorrei ao mesmo tempo, à intercessão de São José, puríssimo esposo da Virgem, assim como os grandes Apóstolos São Pedro e São Paulo, que renovarão, com a verdade a terra infestada pelo contágio do erro, enchendo-a com o esplendor da luz celeste.


35 – Enfim, sustentado pela segurança do auxílio divino, confiando em vosso pastoral zelo, a todos damos, Veneráveis Irmãos, do íntimo do coração, assim como ao vosso clero e ao povo confiado a vosso cuidado, a Bênção Apostólica, como prova dos bens celestes e testemunho do Nosso particular afeto.


Dado em Roma, junto de São Pedro, aos 4 de agosto de 1879, segundo ano do Nosso Pontificado.

Leão PP. XIII



 


Sua Santidade Pio XI

(1923)

Tradução por Abner Benedetto


POR OCASIÃO DO VI CENTENÁRIO DACANONIZAÇÃO DE SANTO TOMÁS DE AQUINO.

VENERÁVEIS IRMÃOS,SAUDAÇÃO E BÊNÇÃO APOSTÓLICA.


Numa recente carta apostólica confirmando os estatutos do Direito Canônico, declaramos que o guia a ser seguido nos estudos superiores dos jovens que se preparam para o sacerdócio era Tomás de Aquino. Aproximando-se o aniversário do dia em que foi devidamente inscrito, há seiscentos anos, no calendário dos santos, oferece-Nos uma oportunidade admirável de inculcar isso cada vez mais firmemente nas mentes de Nossos alunos e explicar-lhes que vantagem eles podem tirar de forma mais útil do ensino de tão ilustre Doutor.


Tal combinação de doutrina e piedade, de erudição e virtude, de verdade e caridade, é encontrada num grau eminente no Doutor Angélico e não é sem razão que ele recebeu o sol como dispositivo; pois ele traz tanto a luz do conhecimento para as mentes dos homens quanto incendeia seus corações e vontades com as virtudes. Deus, fonte de toda santidade e sabedoria, parece, portanto, querer mostrar no caso de Tomás como cada uma dessas qualidades auxilia a outra, como a prática das virtudes dispõe para a contemplação da verdade, e a profunda consideração da verdade, por sua vez, dá brilho e perfeição às virtudes. Pois o homem de vida pura e reta, cujas paixões são controladas pela virtude, fica como que livre de um fardo pesado e pode muito mais facilmente elevar sua mente às coisas celestiais e penetrar mais profundamente nos segredos de Deus, de acordo com a máxima do próprio Tomás: “A vida vem antes do aprendizado: pois a vida leva ao conhecimento da verdade” (In Mt., V); e se tal homem se dedicar à investigação do sobrenatural, encontrará um poderoso incentivo nessa busca de levar uma vida perfeita; pois o aprendizado de tais coisas sublimes, cuja beleza é um êxtase arrebatador, longe de ser uma ocupação solitária ou estéril, deve ser considerada, ao contrário, muito prática.


Estas são algumas das primeiras lições, Veneráveis Irmãos, que podem ser aprendidas com a comemoração deste centenário; mas para que possam ser mais evidentes, propomos comentar brevemente nesta carta sobre a santidade e a doutrina de Tomás de Aquino e mostrar que instrução proveitosa pode ser derivada dela por sacerdotes, por seminaristas especialmente e, não menos, por todos os cristãos.


Tomás possuía todas as virtudes morais em grau muito elevado e tão intimamente ligadas que, como ele mesmo insiste que deveria ser o caso, elas formavam um todo na caridade “que informa os atos de todas as virtudes” (II-II, XXIII, 8; I-II, LXV). Se, no entanto, procuramos descobrir as características peculiares e específicas de sua santidade, ocorre-Nos em primeiro lugar aquela virtude que dá a Tomás uma certa semelhança com as naturezas angélicas, que é a castidade; ele a preservou imaculada em uma crise do perigo mais premente e, portanto, foi considerado digno de ser cercado pelos anjos com um cinto místico. Este perfeito respeito pela pureza foi acompanhado ao mesmo tempo por uma igual aversão por posses passageiras e um desprezo por honras; está registrado que sua firmeza de propósito superou a obstinada persistência de parentes que se esforçaram ao máximo para induzi-lo a aceitar uma situação lucrativa no mundo e que mais tarde, quando o Sumo Pontífice teria oferecido a ele uma mitra, suas orações foram bem sucedidas em garantir que um fardo tão terrível não fosse colocado sobre ele. A característica mais distintiva, porém, da santidade de Tomás é o que São Paulo descreve como a “palavra da sabedoria” (I Cor. XII, 8) e aquela combinação das duas formas de sabedoria, a adquirida e a infundida, como são denominadas, com as quais nada concorda tão bem quanto a humildade, a devoção à oração e o amor a Deus.


[Sendo] tal humildade o fundamento sobre o qual se baseavam as outras virtudes de Tomás, fica claro para qualquer um que considere quão submissamente ele obedeceu a um irmão leigo no curso de sua vida comunitária; e não é menos patente para quem lê seus escritos que manifestam tal respeito pelos Padres da Igreja que “por ter tido a maior reverência pelos doutores da antiguidade, parece ter herdado de certo modo o intelecto de todos” (Leão XIII, ex Card. Caietano, litt. Encycl. Aeterni Patris, 4 de Agosto de 1879); mas a mais magnífica ilustração disso pode ser encontrada no fato de que ele dedicou as faculdades de seu intelecto divino não para ganhar glória para si, mas para o avanço da verdade. A maioria dos filósofos, via de regra, anseia por estabelecer sua própria reputação, mas Tomás se esforçou para se apagar completamente no ensino de sua filosofia, para que a luz da verdade celestial pudesse brilhar com seu próprio esplendor.


Esta humildade, portanto, combinada com a pureza de coração que mencionamos, e devoção diligente à oração, dispôs a mente de Tomás à docilidade em receber as inspirações do Espírito Santo e seguir Suas iluminações, que são os primeiros princípios da contemplação. Para obtê-los do alto, ele frequentemente jejuava, passava noites inteiras em oração, inclinava a cabeça no fervor de sua piedade não afetada contra o tabernáculo que continha o augusto Sacramento, voltava constantemente os olhos e a mente com tristeza para a imagem de Jesus crucificado, que foi o maior livro do qual aprendeu tudo o que sabia, como ele mesmo confessou ao seu amigo São Boaventura. Pode-se, portanto, dizer verdadeiramente de Tomás o que é comumente relatado de São Domingos, Pai e Legislador, que em sua conversa ele nunca falou senão sobre Deus ou com Deus.


Mas como ele estava acostumado a contemplar todas as coisas em Deus, a Causa primeira e o Fim último de todas as coisas, era fácil para ele seguir em sua Summa Theologiae não menos do que em sua vida os dois tipos de sabedoria mencionados anteriormente. Ele mesmo as descreve da seguinte maneira: “A sabedoria adquirida pelo esforço humano… dá a um homem um bom julgamento em relação às coisas divinas conforme ele faz um uso perfeito da razão… Mas existe outro tipo de sabedoria que desce do alto… e julga as coisas divinas em virtude de certa conaturalidade com elas. Essa sabedoria é o dom do Espírito Santo… e por meio dela o homem se torna perfeito nas coisas divinas, não apenas aprendendo, mas também experimentando as coisas divinas” (II-II, XLV, 1, ad 2; 2).


Esta sabedoria, portanto, que desce de Deus ou é infundida por Deus, acompanhada pelos outros dons do Espírito Santo, crescia e aumentava continuamente em Tomás, juntamente com a caridade, mestra e rainha de todas as virtudes. De fato, era uma doutrina absolutamente certa dele que o amor de Deus deveria sempre aumentar continuamente “de acordo com as próprias palavras do mandamento: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração’; pois o todo e o perfeito são a mesma coisa… Ora, a finalidade do mandamento é a caridade procedente de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida, como diz o Apóstolo (ITim 1, 5), mas nenhum padrão de medida é aplicável ao fim, mas apenas às coisas que conduzem ao fim” (II-II, CLXXXIV, 3). Esta é a razão pela qual a perfeição da caridade cai sob o mandamento como o fim para o qual todos devemos lutar, cada um de acordo com seu grau. Além disso, como “é próprio da caridade fazer o homem tender para Deus, unindo os afetos do homem a Deus de tal maneira que o homem deixe de viver para si mesmo e viva somente para Deus” (II-II, XVII, 6, ad 3), assim o amor de Deus, aumentando continuamente em Tomás junto com aquela dupla sabedoria, induziu-o no final a tal esquecimento absoluto de si mesmo que quando Jesus lhe falou da cruz, dizendo: “Tomás, escreveste bem sobre mim”, e perguntou a ele: “Que recompensa devo lhe dar por todo o seu trabalho?” o santo respondeu: “Nada além de Ti, Senhor!” Assim, estimulado pela caridade, trabalhou assiduamente em favor dos outros, escrevendo excelentes livros, ajudando seus irmãos em seus trabalhos, despiu-se de suas próprias roupas para ajudar os pobres, e também devolveu a saúde aos enfermos, como aconteceu na Basílica do Vaticano, onde ele pregava na solenidade da Páscoa, quando curou repentinamente uma mulher que havia tocado a bainha de seu hábito de uma hemorragia crônica.


Em que outro Doutor esta “palavra de sabedoria” mencionada por São Paulo foi mais notável e abundante do que no Doutor Angélico? Ele não estava satisfeito em iluminar as mentes dos homens com seus ensinamentos: ele se esforçou arduamente para excitar suas vontades para amar em troca tal amor, que é a Causa de todas as coisas. “O amor de Deus é a fonte e origem da bondade nas coisas” ele declara magnificamente (I, XX, 2), e ilustra incessantemente essa difusão da bondade divina em sua discussão de todos os vários mistérios. “Portanto, é da natureza do bem perfeito comunicar-se de maneira perfeita e isso é feito em grau supremo por Deus… na Encarnação” (III, 1, I). Nada, porém, mostra tão claramente a força do seu gênio e da sua caridade como o Ofício que ele mesmo compôs para o augusto Sacramento. As palavras que pronunciou em seu leito de morte, quando estava prestes a receber o santo Viaticum, são a medida de sua devoção a esse Sacramento ao longo de sua vida: “Eu Te recebo, Preço da redenção de minha alma, por amor de Quem estudei, vigiei e trabalhei”.


Após este breve esboço das grandes virtudes de Tomás, é fácil compreender a preeminência de sua doutrina e a admirável autoridade de que goza na Igreja. Nossos Predecessores, de fato, sempre o exaltaram unanimemente. Mesmo durante a vida do santo, Alexandre IV não hesitou em se dirigir a ele nestes termos: “Ao Nosso amado filho, Tomás de Aquino, distinto tanto pela nobreza de sangue e integridade de caráter, que adquiriu pela graça de Deus o tesouro do conhecimento divino e humano”. Depois de sua morte, novamente, João XXII parecia consagrar tanto suas virtudes quanto sua doutrina quando, dirigindo-se aos Cardeais, pronunciou em pleno Consistório a memorável frase: “Ele sozinho iluminou a Igreja mais do que todos os outros doutores; um homem pode obter mais proveito em um ano de seus livros do que pesando toda a sua vida no ensino de outros”.


Ele gozava de uma reputação mais que humana de intelecto e erudição e, portanto, Pio V foi movido a inscrevê-lo oficialmente entre os santos Doutores com o título de Angélico. Novamente, poderia haver alguma indicação mais manifesta da altíssima estima em que este Doutor é tido pela Igreja do que o fato de que os Padres de Trento resolveram que apenas dois escritos, a Sagrada Escritura e a Summa Theologiae, deveriam ser abertos com reverência no altar durante suas deliberações? E nesta ordem de idéias, para evitar recapitular os inúmeros testemunhos da Sé Apostólica, temos o prazer de lembrar que a filosofia de Aquino foi revivida pela autoridade e por instância de Leão XIII; o mérito de Nosso ilustre Predecessor em fazê-lo é tal, como dissemos em outro lugar, que se ele não tivesse sido o autor de muitos atos e decretos de sabedoria incomparável, isso por si só seria suficiente para estabelecer sua glória imortal. O Papa Pio X, de santa memória, seguiu-lhe pouco depois os passos, mais particularmente no seu Motu Proprio Doctoris Angelici, no qual há esta memorável frase: “Desde a feliz morte do Doutor, a Igreja não realizou um único Concílio, mas [ele] esteve presente com toda a riqueza de sua doutrina”. Mais próximo de Nós, Nosso saudoso Predecessor Bento XV declarou repetidamente que era inteiramente da mesma opinião e deve ser louvado por ter promulgado o Código de Direito Canônico em que “o sistema, a filosofia e os princípios do Doutor Angélico” são sem reservas sancionados. Aprovamos com tanto entusiasmo o magnífico tributo de louvor concedido a esse gênio divino que consideramos que Tomás deva ser chamado não apenas de Angélico, mas também de Doutor Comum ou Universal da Igreja; pois a Igreja adotou sua filosofia como Sua, como atestam inúmeros documentos de todo tipo. Seria uma tarefa infindável explicar aqui todas as razões que moveram os Nossos Predecessores a este respeito, e talvez seja suficiente assinalar que Tomás escreveu sob a inspiração do espírito sobrenatural que animou a sua vida e que os seus escritos, que contêm os princípios e as leis que regem todos os estudos sagrados, devem ser considerados como detentores de um caráter universal.


Ao lidar oralmente ou por escrito com as coisas divinas, ele fornece aos teólogos um exemplo notável da íntima conexão que deve existir entre a vida espiritual e a intelectual. Pois assim como não se pode realmente dizer que um homem conhece algum país distante, se seu conhecimento se limitar apenas a uma descrição dele, por mais precisa que seja, mas deve ter morado nele por algum tempo; assim ninguém pode atingir um conhecimento íntimo de Deus por mera investigação científica, a menos que ele também habite na associação mais íntima com Deus. O objetivo de toda a teologia de Santo Tomás é levar-nos a uma intimidade viva e próxima com Deus. Pois, assim como em sua infância em Monte Cassino, ele incessantemente fazia a pergunta: “O que é Deus?”; assim, todos os livros que ele escreveu sobre a criação do mundo, a natureza do homem, as leis, as virtudes e os sacramentos, dizem respeito a Deus, o Autor da salvação eterna.


Novamente, discutindo as causas da esterilidade de tais estudos, a saber, a curiosidade, ou seja, o desejo desenfreado de conhecimento, indolência de espírito, aversão ao esforço e falta de perseverança, ele insiste que não há outro remédio senão o zelo no trabalho com o fervor da piedade que deriva da vida do espírito. Os estudos sagrados, portanto, sendo dirigidos por uma tríplice luz, razão invariável, fé infusa e os dons do Espírito Santo, pelos quais a mente é levada à perfeição, ninguém jamais foi mais generosamente dotado deles do que Nosso Santo. Depois de gastar todas as riquezas de seu intelecto em algum assunto de dificuldade excepcional, ele buscaria a solução de seu problema de Deus pela mais humilde oração e jejum; e Deus estava acostumado a ouvir Seu suplicante tão gentilmente que Ele despachou os Príncipes dos Apóstolos às vezes para instruí-lo. Não é, portanto, surpreendente que, no final de sua vida, ele tenha subido a tal grau de contemplação a ponto de declarar que tudo o que havia escrito lhe parecia mera palha e que era incapaz de ditar outra palavra; seus olhos já estavam fixos apenas na eternidade, seu único desejo era ver Deus. Pois, de acordo com Tomás, [de longe] o benefício mais importante a ser obtido dos estudos sagrados, é que eles inspiram um homem com um grande amor por Deus e um grande desejo pelas coisas eternas.


Ele não apenas nos instrui com seu exemplo como prosseguir numa tal diversidade de estudos, mas também nos ensina princípios firmes e duradouros de cada ciência. Pois, em primeiro lugar, quem forneceu melhor explicação do que ele sobre a natureza e o caráter da filosofia, suas várias divisões e a importância relativa de cada uma? Considere quão claramente ele demonstra a congruência e a harmonia entre todas as várias seções que constituem o corpo, por assim dizer, desta ciência. “É função do sábio”, declara ele, “colocar as coisas em ordem, porque a sabedoria é principalmente a perfeição da razão e é característica da razão conhecer a ordem; pois embora as faculdades sensitivas conheçam algumas coisas absolutamente, apenas o intelecto ou a razão podem conhecer a relação que uma coisa tem com a outra. As ciências, portanto, variam de acordo com as várias formas de ordem que a razão percebe serem peculiares a cada uma. A ordem que a consideração da razão estabelece em sua própria atividade peculiar pertence à filosofia racional ou à lógica, cuja função é considerar a ordem das partes do discurso em suas relações mútuas e em relação às conclusões que delas se podem tirar. Cabe à filosofia natural ou à física considerar a ordem nas coisas que a razão humana considera, mas não institui ela mesma, de modo que, sob a filosofia natural, também incluímos a metafísica. Mas a ordem dos atos voluntários é para a consideração da filosofia moral que é dividida em três seções: a primeira considera as atividades do homem individual em relação ao seu fim e é chamada de ‘monástica’; a segunda considera as atividades do grupo familiar ou comunitário e é denominada economia; a terceira considera as atividades do Estado e se chama política” (Ethics, I, I). Tomás lidou minuciosamente com todas essas várias divisões da filosofia, cada uma de acordo com seu método apropriado e, começando com as coisas mais próximas de nossa razão humana, subiu passo a passo para coisas mais remotas até que ele finalmente se posicionou no “mais alto pico de todas as coisas” (Contra Gentes, II, LVI; IV, 1).


Seu ensinamento com relação ao poder ou valor da mente humana é irrefragável. “A mente humana tem um conhecimento natural do ser e das coisas que em si fazem parte do ser como tal, e esse conhecimento é a base de nosso conhecimento dos primeiros princípios” (Contra Gentes, II, LXXXIII). Tal doutrina vai até a raiz dos erros e opiniões daqueles filósofos modernos que sustentam que não é o próprio ser que é percebido no ato da intelecção, mas alguma modificação do percipiente; a consequência lógica de tais erros é o agnosticismo, tão vigorosamente condenado na Encíclica Pascendi.


Os argumentos aduzidos por Santo Tomás para provar a existência de Deus e que somente Deus é o próprio Ser subsistente são ainda hoje, como o foram na Idade Média, os mais convincentes de todos os argumentos e confirmam claramente aquele dogma da Igreja que foi solenemente proclamado no Concílio do Vaticano e sucintamente expresso por Pio X como segue: “O conhecimento certo de Deus como o primeiro princípio da criação e seu fim e prova demonstrável de sua existência pode ser inferido, como o conhecimento de uma causa de seu efeito, à luz da razão natural, da criação, ou seja as obras visíveis da criação” (Motu Proprio Sacrorum Antistitum, 1 de Setembro de 1910). A metafísica de Santo Tomás, embora exposta até hoje às amargas investidas de críticos preconceituosos, ainda assim retém, como o ouro que nenhum ácido pode dissolver, sua plena força e esplendor intactos. Nosso Predecessor, portanto, observou com razão: “Desviar-se de Tomás de Aquino, especialmente na metafísica, é correr um grave risco” (Encycl. Pascendi, 8 de Setembro de 1907).


A mais nobre das disciplinas humanas é certamente a Filosofia, mas, segundo a ordem vigente da Providência divina, não podemos defini-la acima das demais porque não abarca toda a universalidade das coisas. Com efeito, na introdução à sua Summa Contra Gentiles, como também à sua Summa Theologiae, o santo Doutor descreve uma outra ordem de coisas colocada acima da natureza e que escapa ao alcance da razão, uma ordem que o homem nunca teria suspeitado se a bondade divina não tivesse revelado [isso] a ele. Esta é a região na qual a fé é suprema, e a ciência da fé é chamada de Teologia. A ciência desse tipo será tanto mais perfeita no homem quanto mais ele estiver familiarizado com as evidências da fé e tiver ao mesmo tempo uma faculdade de filosofar mais desenvolvida e treinada. Não há dúvida de que Tomás de Aquino elevou a Teologia à mais alta eminência, pois seu conhecimento das coisas divinas era absolutamente perfeito e o poder de sua mente fez dele um filósofo maravilhosamente capaz. Tomás é, portanto, considerado o príncipe dos professores em nossas escolas, não tanto por causa de seu sistema filosófico, mas por causa de seus estudos teológicos. Não existe ramo da teologia em que não tenha exercido a incrível fecundidade de seu gênio.


Pois, em primeiro lugar, ele estabeleceu a apologética numa base sólida e genuína, definindo exatamente a diferença entre a província da razão e a província da fé e distinguindo cuidadosamente as ordens natural e sobrenatural. Quando o sagrado Concílio do Vaticano, portanto, ao determinar que conhecimento natural da religião era possível, afirmou a necessidade relativa de alguma revelação divina para o conhecimento certo e certo e a necessidade absoluta da revelação divina para o conhecimento dos mistérios, empregou argumentos que foram emprestados precisamente de Santo Tomás. Ele insiste que todos os que se comprometem a defender a fé cristã devem considerar sacrossanto o princípio de que: “Não é mera loucura concordar com as coisas da fé, embora estejam além da razão” (Contra Gentes, I, VI). Ele mostra que, embora os artigos da crença sejam misteriosos e obscuros, as razões que nos persuadem a acreditar são, no entanto, claras e perspícuas, pois, diz ele, “um homem não acreditaria a menos que visse que havia coisas em que acreditar” (II-II, I, 4); e acrescenta que, longe de ser considerada um estorvo ou um jugo servil imposto aos homens, a fé deve, ao contrário, ser considerada uma bênção muito grande, porque “a fé em nós é uma espécie de começo da vida eterna” (Qq Disp. de Veritate, XIV, 2).


O outro ramo da Teologia, que se ocupa da interpretação dos dogmas, também encontrou em Santo Tomás o mais rico de todos os comentadores; O outro ramo da Teologia, que se ocupa da interpretação dos dogmas, também encontrou em Santo Tomás o mais rico de todos os comentadores; pois ninguém jamais penetrou ou expôs com maior sutileza todos os augustos mistérios, como, por exemplo, a vida íntima de Deus, a obscuridade da predestinação eterna, o governo sobrenatural do mundo, a faculdade concedida às criaturas racionais de atingir seu fim, a redenção do gênero humano realizada por Jesus Cristo e continuada pela Igreja e pelos sacramentos, ambos os quais o Doutor Angélico descreve como “relíquias, por assim dizer, da divina Encarnação”.


Ele também compôs uma teologia moral substancial, capaz de orientar todos os atos humanos de acordo com o fim último sobrenatural do homem. E como ele é, como dissemos, o teólogo perfeito, ele dá regras e preceitos de vida infalíveis não apenas para os indivíduos, mas também para a sociedade civil e doméstica, que também é objeto da ciência moral, tanto econômica quanto política. Daí aqueles magníficos capítulos da segunda parte da Summa Theologiae sobre o governo paterno ou doméstico, o poder legal do Estado ou da nação, o direito natural e internacional, a paz e a guerra, a justiça e a propriedade, as leis e a obediência que elas impõem, o dever de ajudar os cidadãos individuais em suas necessidades e cooperar com todos para garantir a prosperidade do Estado, tanto na ordem natural quanto na ordem sobrenatural. Se esses preceitos fossem religiosamente e inviolavelmente observados na vida privada e nos negócios públicos, e nos deveres de obrigação mútua entre as nações, nada mais seria necessário para assegurar à humanidade aquela “paz de Cristo no Reino de Cristo” que o mundo tanto almeja. É, portanto, desejável que os ensinamentos de Tomás de Aquino, mais particularmente sua exposição do direito internacional e das leis que regem as relações mútuas dos povos, sejam cada vez mais estudados, pois contém os fundamentos de uma verdadeira “Liga das Nações”.


Sua eminência no aprendizado do ascetismo e misticismo não é menos notável; pois ele trouxe toda a ciência da moral de volta para a teoria das virtudes e dons, e definiu maravilhosamente tanto a ciência quanto a teoria em relação às várias condições dos homens, tanto daqueles que se esforçam para alcançar a perfeição cristã e a plenitude do espírito, tanto na vida ativa quanto na contemplativa. Se alguém, portanto, deseja compreender plenamente todas as implicações do mandamento de amar a Deus, o crescimento da caridade e os dons conjuntos do Espírito Santo, as diferenças entre os vários estados de vida, como o estado de perfeição, o a vida religiosa e o apostolado, a natureza e valor de cada um, todos estes e outros artigos de teologia ascética e mística, deve recorrer em primeiro lugar ao Doutor Angélico.


Tudo o que ele escreveu foi firmemente baseado na Sagrada Escritura e esse foi o fundamento sobre o qual ele construiu. Tudo o que ele escreveu foi firmemente baseado na Sagrada Escritura e esse foi o fundamento sobre o qual ele construiu. Pois, como estava convencido de que a Escritura era inteira e em todos os detalhes a verdadeira palavra de Deus, ele submeteu cuidadosamente a sua interpretação às mesmas regras que nossos recentes predecessores sancionaram, Leão XIII em sua Encíclica Providentissimus Deus e Bento XV em sua Encíclica Spiritus Paraclitus. Ele estabeleceu o princípio: “O principal Autor da Sagrada Escritura é o Espírito Santo… Mas o homem foi o autor instrumental” (Quodlib., VII, 14, ad 5), e não permitiria que a historicidade absoluta da Bíblia fosse posta em dúvida; mas com base no significado das palavras ou no sentido literal, ele estabeleceu a fecundidade e a riqueza do sentido espiritual, cuja tripla natureza, alegórica, tropológica e anagógica, ele expôs com o comentário mais engenhoso.


Por fim, nosso Doutor possuía o dom excepcional e altamente privilegiado de poder converter seus preceitos em orações litúrgicas e hinos e assim se tornou o poeta e panegirista da Divina Eucaristia. Pois onde quer que a Igreja Católica se encontre no mundo, em quaisquer nações, ela usa zelosamente e sempre continuará a usar em seus serviços sagrados os hinos compostos por Santo Tomás. Eles são a expressão das súplicas ardentes de uma alma em oração e, ao mesmo tempo, uma perfeita afirmação da doutrina do augusto Sacramento transmitida pelos Apóstolos, que é eminentemente descrito como o Mistério da Fé. Tendo em conta estas considerações e os louvores do próprio Cristo a que já nos referimos, ninguém se admirará de que também Santo Tomás tenha recebido o título de Doutor da Eucaristia.


Do que foi dito, tiramos essas consequências muito oportunas para a prática. Sobretudo é necessário que os jovens, em particular, tomem Santo Tomás como modelo e procurem imitar e seguir com toda a diligência as grandes virtudes que nele se destacaram, sobretudo a humildade, que é o fundamento da vida espiritual, e a pureza. Desse homem, supremo em compromisso e doutrina, aprendam a refrear todo movimento de orgulho de sua alma e a implorar humildemente a abundância de luz divina em seus estudos. Que aprendam também com este mestre a fugir incansavelmente das tentações dos sentidos, para não terem então de contemplar a sabedoria com os olhos escurecidos. De fato, isso ele ensinou em sua vida com o exemplo, e confirmou com seu ensinamento: “Se alguém se abstém dos prazeres corporais para se dedicar mais livremente à contemplação da verdade, isso pertence à retidão da razão” (II-II,CLVII, 2). Por isso somos advertidos na Sagrada Escritura: “… a sabedoria não entrará em uma alma maliciosa, nem habitará em um corpo sujeito a pecados” (Sabedoria, I, 4). Portanto, se a pureza de Tomás, no extremo perigo a que foi exposta, tivesse falhado, é de se supor que a Igreja não teria tido seu Doutor Angélico.


Visto que vemos a maioria dos jovens presos nas areias movediças da paixão, abandonando rapidamente a santa pureza e abandonando-se aos prazeres sensuais, nós imediatamente os exortamos, veneráveis irmãos, a propagar em todos os lugares, e particularmente entre os seminaristas, a sociedade da Milícia Angélica fundada sob o patrocínio de Tomás para a preservação e manutenção da santa castidade e confirmamos os privilégios das indulgências pontifícias que lhe foram concedidas por Bento XIII e outros de Nossos Predecessores. E para que todos sejam mais facilmente persuadidos a dar o seu nome à Milícia, permitimos, aos que nela vierem fazer parte, usar, em vez do cíngulo, uma medalha sagrada pendurada ao pescoço, que ostenta o nome de um lado a imagem de Santo Tomás rodeado de anjos, e do outro a da Virgem, Rainha do Santíssimo Rosário.


Sendo então Santo Tomás declarado patrono de todas as escolas católicas, como aquele que reunia admiravelmente em si uma dupla sabedoria, isto é, aquela que se adquire com a razão e aquela que nos é incutida por Deus, e na resolução das questões mais difíceis ele uniu as orações os jejuns, e manteve a imagem de Jesus Cristo Crucificado como seu livro principal, os jovens consagrados a Deus aprendem com ele como devem praticar nos bons estudos para retratar o maior fruto. Os membros das comunidades religiosas devem olhar para a vida de Santo Tomás como um espelho; recusou até as mais altas dignidades que lhe eram oferecidas para viver na prática da mais perfeita obediência e morrer na santidade de sua profissão. Que todos os fiéis de Cristo tomem o Doutor Angélico como modelo de devoção à augusta Rainha do Céu, pois era seu costume repetir muitas vezes a “Ave Maria” e inscrever o doce Nome em suas páginas; peçam(os) ao Doutor Eucarístico fervor para com o divino Sacramento. E isso deve ser pedido sobretudo pelos sacerdotes. “Todos os dias, quando a enfermidade não o impedia, Tomás celebrava uma missa, e depois ouvia outra do seu companheiro ou de outros, e muitas vezes a servia”, conta o autor mais diligente da sua vida. E quem pode expressar o fervor de seu espírito em celebrar o santo sacrifício, e quão diligentemente ele se preparou e, ao terminar, que agradecimentos ele ofereceu à divina Majestade?


Novamente, se quisermos evitar os erros que são a fonte e o manancial de todas as misérias de nosso tempo, o ensinamento de Tomás de Aquino deve ser aderido mais religiosamente do que nunca. Pois Tomás refuta as teorias propostas pelos modernistas em todas as esferas, na filosofia, protegendo, como Lembramos a vós, a força e o poder da mente humana e demonstrando a existência de Deus pelos argumentos mais convincentes; na teologia dogmática, distinguindo o sobrenatural da ordem natural e explicando as razões da crença e os próprios dogmas; na teologia, mostrando que os artigos de fé não se baseiam em meras opiniões, mas na verdade e, portanto, não podem mudar; na exegese, transmitindo a verdadeira concepção da inspiração divina; na ciência da moral, na sociologia e no direito, estabelecendo sólidos princípios de justiça jurídica e social, comutativa e distributiva, e explicando as relações entre justiça e caridade; na teoria do ascetismo, pelos seus preceitos sobre a perfeição da vida cristã e a sua refutação dos inimigos das ordens religiosas do seu tempo. Por fim, contra a tão alardeada liberdade da razão humana e sua independência em relação a Deus, ele afirma os direitos da Verdade primária e a autoridade sobre nós do Mestre Supremo. Fica claro, portanto, por que os modernistas estão tão amplamente justificados em temer nenhum Doutor da Igreja tanto quanto Tomás de Aquino.


Assim como um dia foi dito aos antigos egípcios em tempos de fome: “Vá a José”, para que recebessem dele um suprimento de milho para alimentar seus corpos, agora dizemos a todos os que desejam a verdade: “Vá a Tomás” para obter dele, que tem tanto, o pasto da sã doutrina e o alimento que nutrirá vossas almas para a vida eterna. A prova de que tal alimento está à mão e acessível a todos os homens foi dada sob juramento na audiência do processo de canonização do próprio Tomás, nas seguintes palavras: “Inumeráveis mestres seculares e religiosos floresceram sob o ensino lúcido e límpido deste Doutor, porque seu método era sucinto, fácil e claro… mesmo leigos e pessoas de pouca instrução desejam ter seus escritos”.


Desejamos especialmente àqueles que se dedicam ao ensino dos estudos superiores nos seminários que observem diligentemente e mantenham inviolavelmente os decretos de Nossos Predecessores, mais particularmente os de Leão XIII (a Encíclica Aeterni Patris) e Pio X (o Motu Proprio Doctoris Angelici) e as instruções que Nós mesmos emitimos no ano passado. Que eles sejam persuadidos de que cumprirão seu dever e cumprirão Nossa expectativa quando, após longa e diligente leitura de seus escritos, eles comecem a sentir uma intensa devoção pelo Doutor Aquino e, por sua exposição, consigam inspirar seus alunos com o mesmo fervor e treiná-los para despertar um zelo semelhante nos outros.

Desejamos que os amantes de Santo Tomás — e todos os filhos da Igreja que se dedicam aos estudos superiores — sejam incitados por uma honrosa rivalidade numa liberdade justa e adequada que é o sangue vital dos estudos, mas que nenhum espírito de menosprezo malévolo prevaleça entre eles, pois qualquer um deles, longe de ajudar a verdade, serve apenas para afrouxar os laços da caridade. Portanto, que se observe inviolavelmente o que prescreve o Código de Direito Canônico: “Os estudos de filosofia racional e teologia, e a instrução dos alunos nestas disciplinas, devem ser tratados absolutamente pelos professores de acordo com o método, doutrina e princípios do Doutor Angélico, e estes devem ser religiosamente seguidos”. E que eles possam se conformar a esta regra com tanta fidelidade que possam descrevê-lo com toda a verdade como seu mestre. Que ninguém exija do outro mais do que a Igreja, senhora e mãe de todos, exige de cada um; e nas questões que nas escolas católicas são objeto de controvérsia entre as mais respeitáveis autoridades, ninguém seja impedido de aderir a qualquer opinião que lhe pareça a mais provável.


Portanto, como todo o cristianismo se preocupa que este centenário seja celebrado dignamente, quase como se, ao homenagear Santo Tomás, se tratasse não só da sua glória, mas da autoridade da Igreja docente, é Nosso desejo que tal aniversário, desde o dia 18 de julho deste ano até o final do ano seguinte, seja celebrado em todo o mundo, onde quer que existam escolas de jovens clérigos, isto é, não só entre os Frades Pregadores, uma Ordem que, nas palavras de Bento XV, “deve ser louvada, não tanto por ter sido a família do Doutor Angélico, mas por nunca ter abandonado a sua doutrina nem um ponto” (Acta Ap. Sedis, VIII, 1916, p. 397), mas também entre outras comunidades religiosas, e em todos os seminários e colégios católicos para os quais ele foi nomeado patrono celestial. É justo que esta Cidade Eterna, na qual Tomás de Aquino já foi mestre do Palácio Sagrado, assuma a liderança em realizar tais celebrações e que o Pontifício Colégio Angélico, onde se pode dizer que Santo Tomás está em casa, e as outras academias em Roma para a educação dos sacerdotes dão o exemplo nestas santas alegrias.


Em virtude do Nosso poder Apostólico e com a finalidade de aumentar o esplendor e o proveito que se obtém desta celebração deriva, Concedemos os seguintes privilégios:


I. Que em todas as igrejas pertencentes à Ordem dos Pregadores e em todas as outras igrejas ou capelas às quais o público tenha ou possa ter acesso, particularmente nos seminários, colégios ou outras instituições para a educação dos sacerdotes, as orações possam ser ditas por três, oito ou nove dias com as indulgências pontifícias que costumam ser atribuídas às orações ditas em honra dos santos e dos beatos;


II. Que nas igrejas dos Frades e das Irmãs de São Domingos os fiéis possam uma vez em qualquer dia que escolherem no curso das celebrações do centenário, depois de confessarem devidamente os seus pecados e receberem a Sagrada Comunhão, obter uma indulgência plenária a todos os que rezarem diante do altar de Santo Tomás;


III. Que nas igrejas da Ordem de São Domingos, os sacerdotes, membros da Ordem ou terciários, possam, no decorrer do ano centenário, em qualquer quarta-feira ou no primeiro dia livre da semana, celebrar missa em honra de Santo Tomás, como na sua festa, com ou sem o Gloria e o Credo, conforme o rito do dia, e obter a remissão plenária dos pecados; os presentes em qualquer uma dessas missas também podem obter uma indulgência semelhante nas condições usuais.


Além disso, uma disputa será realizada em seminários e outras instituições para a educação dos padres sobre algum ponto da filosofia ou outro ramo importante do conhecimento em honra do Doutor Angélico. E para que a festa de Santo Tomás possa ser comemorada no futuro de maneira digna do patrono de todas as escolas católicas, ordenamos que seja mantida como feriado e celebrada não apenas com uma missa solene, mas também, pelo menos em seminários e entre comunidades religiosas, pela realização de uma disputa como dito acima.


Finalmente, para que os estudos a que se dedicam os nossos jovens possam, sob a proteção de Tomás de Aquino, produzir cada vez mais frutos para a glória de Deus e da Igreja, Anexamos a esta Carta a forma de oração que o próprio Santo costumava usar e Exortamo-vos que [ela] seja amplamente divulgada. Quem a recitar devidamente, saiba que por Nossa autoridade lhe é concedida uma indulgência de sete anos e sete quarentenas.

Como augúrio do favor divino e em testemunho da Nossa paterna benevolência, Concedemos-vos com muito afeto, Veneráveis Irmãos, bem como ao clero e pessoas confiadas aos vossos cuidados, a Bênção Apostólica.


Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 29 de junho, festa dos Príncipes dos Apóstolos, no ano de 1923, segundo ano do Nosso Pontificado.






Comments


bottom of page